Em sua intervenção, fundamentada nas quatro escolas de jurisprudência islâmica, o Sheikh clarificou que cobrir o corpo é uma prescrição divina. “Não é coisa de Ramadhan e só. É uma obrigação. Não é facultativo”, afirmou.
O sheikh utilizou princípios da jurisprudência islâmica para sustentar que a integração da mulher no mercado de trabalho e no ensino, sem abdicar da sua identidade, é uma questão de interesse público.
Ele criticou severamente as normas institucionais que forçam as fiéis a escolher entre a fé e a carreira, classificando tal pressão como um dano que a Sharia e o Estado não devem tolerar. No entanto, o Sheikh alertou para o uso indevido do princípio de que “a necessidade torna lícito o proibido”, frequentemente invocado para justificar o abandono do hijab por razões económicas.
Para o líder religioso, essa é uma solução de última instância que não deve ser normalizada. “A comunidade islâmica tem o dever de criar condições e alternativas que eliminem essa pressão de forma estruturada”, defendeu.
Um dos pontos mais contundentes da sua fala foi o diagnóstico das barreiras internas, especialmente o que chamou de “elitismo” das escolas islâmicas. Sheikh Daúde denunciou que instituições geridas por muçulmanos muitas vezes praticam mensalidades proibitivas, empurrando as irmãs com menos recursos para escolas de outras confissões, onde a sua prática religiosa pode ser comprometida.
“Um muçulmano que possui um colégio e monopoliza o espaço do ensino islâmico com preços que excluem seus irmãos mais pobres responde perante Allah pelo dano que causa à sua fé”, sentenciou, lembrando que a doação filantrópica deveria ser usada para garantir o acesso universal à educação islâmica.
No campo laboral, o Sheikh destacou que a precariedade salarial e os contratos que exigem a retirada do véu violam a Lei 13/2023 (Lei do Trabalho), que garante a igualdade independentemente do ideal religioso.
Ele recordou ainda a validade da Circular n.º 6/2018, que autoriza o uso do lenço nas escolas moçambicanas, sublinhando que este não é um “favor” à comunidade, mas um direito de qualquer cidadã.
Por fim, o Sheikh argumentou que a baixa adesão ao hijab por parte de algumas muçulmanas enfraquece o poder de negociação da comunidade perante o Estado.
“A autoridade moral da reivindicação diminui quando quem reivindica o direito não pratica”, concluiu.

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