Durante a sua abordagem o Maulana lembrou que ter passado pela madrassa, escola islâmica, e não ter saído de lá como um grande erudito não é motivo para desânimo.
“Cada aluno que passou por aqui é inteligente à sua maneira. Não podemos pensar: ‘eu passei pela madraça, não entendi nada, não sei rezar bem’. Não! Allah dotou cada um de nós com inteligência. E o que é inteligência? É a capacidade de aprender, compreender, resolver um problema e adaptar-se a novas situações,” explicou.
Para mostrar como a inteligência prática funciona no dia-a-dia, Maulana Hussene recordou um problema antigo da própria cidade de Tete. A falta de espaço no único cemitério local. O local tinha ficado pequeno e havia um muro a delimitar a área, o que gerava confusões e discussões sempre que alguém falecia e precisava de ser enterrado do outro lado da parede.
A solução, segundo contou, não veio de grandes teorias, mas da cabeça de jovens atentos.
“Quando entrou um grupo de jovens que passou pelas madraças, eles resolveram tudo. Sabe o que fizeram? Só quebraram o muro. Partiram o muro e acabou toda a guerra, toda a luta e o descontentamento. Por quê? Porque foram inteligentes e resolveram o problema. Você pode não saber ler bem o Alcorão, mas tem inteligência para resolver muitas coisas na comunidade,” destacou.
Outro ponto da palestra foi o recado sobre o trabalho e a autonomia financeira. O Maulana criticou a atitude de quem cruza os braços à espera de ajuda e incentivou todos os presentes a valorizarem as suas profissões, sejam elas quais forem.
“Se nós não evoluirmos naquilo que sabemos fazer, em vez de fazer crescer o nosso dinheiro, vamos ser pedintes. O dinheiro não anda só com os sábios, anda com cada um de nós. Se você é mecânico, melhore a sua oficina. Se é engenheiro, médico, empresário ou trabalha em casa, desenvolva mais a sua actividade”, exortou.
Ele lembrou ainda o exemplo da história antiga, ressaltando que, no passado, os muçulmanos lideravam a ciência, a medicina e os livros, e que esse espírito de progresso precisa de ser resgatado hoje.
Num tom de empatia, o orador chamou a atenção para a necessidade de acolher aqueles membros da comunidade que se afastaram ou que estão em “maus caminhos”, como frequentadores de bares e discotecas. Em vez de julgamento ou desprezo, Maulana Hussene defendeu a aproximação através do respeito e da inclusão nos projectos locais.
“Temos colegas no bom caminho e outros no mau caminho. Mas não podemos nos desprezar. Se precisamos de som para um evento, vamos ter com aquele colega que trabalha na discoteca e pedimos ajuda. Não é porque nos falta equipamento, mas para amolecer o coração dele e trazê-lo para perto. Assim, a pessoa sente-se parte da comunidade e ligada à sua fé”, ensinou.
Ao encerrar o seu discurso, o Maulana dirigiu-se à plateia com um apelo à união e à auto-estima comunitária, deixando uma mensagem de esperança e confiança no potencial dos moradores de Tete.
“Cada um de nós é inteligente. Cada um de nós é importante. Cada um de nós pode resolver qualquer problema que exista nesta comunidade”, concluiu.

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