Antes de assumir o compromisso religioso com a mesquita, o percurso de Vita foi diversificado. Ex-militar e antigo funcionário de cinema, ele estabeleceu-se no Bairro das Mahotas numa época em que o local carecia de uma mesquita formal religiosa formal.
“Na altura nem era mesquita, faz tínhamos o Sualat debaixo de uma árvore. Depois passou a ser uma mesquita de caniço e, com o tempo, virou uma mesquita de blocos”, recorda Vita.
A sua aproximação e engajamento com o espaço começaram pelo trabalho braçal. Antes de ser designado oficialmente para fazer o Adhan, ele fazia limpeza do local, cuidando da manutenção do espaço que viu crescer tijolo a tijolo.
A transição para a função de Muazzin trouxe exigências que moldaram o seu estilo de vida. Questionado sobre os aprendizados que a posição lhe trouxe, Vita afirmou que a função lhe ensinou, acima de tudo, a ter paciência, humildade e responsabilidade.
Para ele, assumir o chamamento das orações exige uma entrega quase exclusiva, uma vez que os horários dos Sualats são muito próximos uns dos outros, impossibilitando a manutenção de outra actividade profissional ou de uma vida social comum fora da mesquita.
Devido à rotina intensa e à avançada idade, a mesquita tornou-se a sua verdadeira morada ao longo do dia.
“O mata-bicho é ali, o almoço é ali, trazem da minha casa. Eu fico ali e só saio depois do Insha”, relata.
A desvalorização da função e o dever pela fé
Para Vita, exercer essa função exige renunciar às facilidades e atractivos que o mundo oferece, algo que ele considera indispensável para quem deseja seguir esse caminho com integridade.
Ao avaliar a percepção da comunidade sobre a figura do Muazzin nos dias de hoje, Vita nota uma mudança significativa no comportamento social. Segundo ele, o respeito que antigamente se tinha por posições como a de Imam ou Muazzin diminuiu progressivamente.
Ele observa que, actualmente, a sociedade tende a enxergar o Muazzin apenas como um encarregado da limpeza, desvalorizando o papel religioso da função.
Sobre isso, Vita faz questão de esclarecer que “o Muazzin desempenha a função de limpeza porque ele quer ver a mesquita limpa, e não porque essa seja a limitação da sua posição.”
A trajectória de Abdur-Rahman Vita também foi testada por provações materiais. Nos primeiros anos em que assumiu a função, sob uma gestão anterior da mesquita, foi estipulada uma modesta remuneração pelo seu trabalho.
Contudo, a pessoa responsável por repassar o valor nunca lhe entregou a quantia. Mesmo sem receber o valor prometido, ele optou por não desistir do seu compromisso e continuou a cumprir o seu dever diariamente.
Diante dos desafios acumulados ao longo de mais de duas décadas, o veterano deixa um conselho directo para a nova geração que busca um propósito ou pensa em servir à religião.
“Para a juventude, é preciso ter muita paciência. A recompensa de ser Muazzin não é aqui no mundo terreno, mas sim na vida após a morte, porque tudo aquilo que a gente faz para Allah, Allah pagará melhor no Akhirah”, concluiu.

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