Quando se fala da mulher muçulmana, é frequente que a discussão se concentre no vestuário, no casamento, na maternidade, no divórcio ou no seu papel na família. Fala-se muito sobre aquilo que ela deve ou não deve fazer, mas nem sempre se discute com a mesma atenção uma questão fundamental: que formação precisa de ter para compreender o mundo em que vive e participar nele com dignidade? Vivemos numa sociedade cada vez mais complexa, plural e, em muitos países, laicos. Nos dias correntes é comum que pessoas de diferentes religiões e convicções frequentem as mesmas escolas, universidades, empresas, instituições públicas, tribunais, entre outros. A mulher muçulmana faz parte desta realidade e não pode ser preparada apenas para viver dentro de casa quando a própria sociedade exige dela conhecimento, capacidade de decisão e participação. Por isso, a educação da mulher muçulmana não deve ser vista como uma escolha secundária, mas sim como uma condição para a sua participação activa na sociedade. Não se trata de colocar a educação secular em oposição à educação religiosa. São dimensões diferentes que sem sombra de dúvidas complementam-se. A formação religiosa contribui para o carácter, a espiritualidade e a orientação moral; a formação académica e profissional proporciona instrumentos para compreender a sociedade, exercer uma profissão, interpretar documentos, utilizar tecnologias, gerir recursos, conhecer a legislação e defender os direitos que lhe são reconhecidos. Reconhecer que a mulher tem direitos é importante, mas não basta. É necessário que ela tenha conhecimento para compreender esses direitos e capacidade para os exercer. Uma mulher com literacia financeira pode participar melhor na gestão dos recursos da família. Uma mulher com formação profissional pode procurar oportunidades de trabalho e contribuir para a economia familiar. Uma mulher academicamente formada pode participar nos debates e espaços de decisão que influenciam a sociedade em que vive. Ou seja, com recurso a educação a mulher terá ferramentas com as quais poderá compreender, decidir, participar e proteger a sua própria dignidade. Esta defesa encontra fundamentos científicos e religiosos, a medida em que, a titulo de exemplo, o Profeta Muhammad (S.A.W.) chamou a atenção para a responsabilidade dos pais perante as suas filhas. Num hadith transmitido por Jamiʿ at-Tirmidhi (1916), é relatado que aquele que tem duas filhas, lhes faz o bem e cuida delas com temor a Allah terá como recompensa o Paraíso. Estes ensinamentos devem levar-nos a reflectir sobre aquilo que significa verdadeiramente o papel e responsabilidade que devemos ter perante nossas mulheres, filhas, sobrinhas, mães. O cuidado que devemos ter com elas não se limita a alimentá-las, vesti-las e protegê-las até ao momento do casamento ou enquanto estiverem sob nossa tutela e/ou responsabilidade. É igualmente imperioso prepará-las para enfrentar a vida. E uma das formas mais importantes de preparar alguém para a vida é proporcionar uma boa educação. Uma mulher formada não é uma ameaça à família, daí que, apostar na educação da mulher muçulmana não pode em momento algum significar propagar ou incitar a competição entre homens e mulheres, nem significa reduzir o valor do homem dentro de casa. Pelo contrário, uma mulher letrada e com bom repertório académico, pode ser simultaneamente uma pessoa profundamente ligada à sua fé, uma esposa, uma mãe, uma profissional e uma cidadã socialmente activa. Essas dimensões não precisam necessariamente de se excluir. O problema começa quando reduzimos a preparação de uma menina ao casamento, como se essa fosse a única grande finalidade para a qual ela deve ser educada. O casamento pode fazer parte da vida de uma mulher, mas não deve ser o limite da sua formação. Numa sociedade onde o conhecimento determina oportunidades, onde a tecnologia transforma profissões e onde decisões jurídicas e económicas afectam diariamente as famílias, deixar uma mulher sem formação significa deixá-la menos preparada para enfrentar a realidade. Uma comunidade que educa as suas meninas está, ao mesmo tempo, a fortalecer as suas futuras famílias. Por isso, talvez devêssemos deixar de perguntar se a educação da mulher muçulmana é necessária e começar a perguntar que oportunidades estamos a criar para que as nossas filhas sejam mulheres de fé, conhecimento e responsabilidade. Se o cuidado e a educação de duas filhas podem ser causa de entrada no Paraíso, então a formação das nossas meninas não deveria ser vista como uma preocupação secundária, mas como uma responsabilidade que pode reunir, numa mesma acção, o dever familiar, a participação social e a recompensa espiritual. Uma mulher muçulmana que conhece a sua religião e compreende a sociedade em que vive não precisa de escolher entre a sua fé e o conhecimento. Ela pode levar a sua fé consigo enquanto atravessa os caminhos do conhecimento. Por: Inácio Henriques – Escritor