Quando se discute a relação entre o Isslam e o Ocidente, muitas conversas concentram-se nos conflitos, esquecendo séculos de intercâmbio, cooperação e desenvolvimento intelectual partilhado. Um dos exemplos mais notáveis desta interacção é a história do café, uma simples bebida cuja viagem a partir do mundo islâmico transformou a vida social, económica e intelectual da Europa.

Segundo os relatos tradicionais, o café foi inicialmente descoberto nas terras altas da Etiópia há mais de mil anos. Foram, contudo, os muçulmanos que transformaram o café numa instituição cultural.

As comunidades sufis do Iémen adoptaram a “al-qahwa” para se manterem despertas durante as orações nocturnas e os encontros espirituais. Através de peregrinos, comerciantes e estudiosos, o café espalhou-se por todo o mundo islâmico, do Iémen para Makkah, Cairo e Istambul.

Nos séculos XV e XVI, o café já estava profundamente enraizado na civilização islâmica. Os muçulmanos aperfeiçoaram os métodos de preparação e consumo da bebida e criaram uma nova instituição que mais tarde mudaria a Europa: a cafetaria.

As primeiras cafetarias surgiram nas cidades do mundo islâmico muito antes de a Europa conhecer a bebida. Estes estabelecimentos eram muito mais do que simples locais para consumir café.

Tornaram-se centros de aprendizagem, debate, poesia, comércio e convivência social. Sábios, mercadores e cidadãos comuns reuniam-se para trocar ideias e discutir os assuntos do seu tempo.

Quando o café chegou à Europa através do comércio com o mundo árabe e otomano, os europeus adoptaram não apenas a bebida, mas também a instituição que a acompanhava.

As primeiras cafetarias europeias surgiram no século XVII. Em Londres, tornaram-se conhecidas como “universidades de um penny”, pois, pelo preço de uma chávena de café, qualquer pessoa podia participar em conversas com comerciantes, escritores, cientistas e políticos.

Os historiadores têm frequentemente observado que as cafetarias se tornaram espaços fundamentais para a troca de ideias durante o Iluminismo. Em contraste com as tabernas centradas no consumo de álcool, as cafetarias favoreciam a lucidez, o debate e a actividade intelectual.

O escritor e historiador contemporâneo Steven Johnson, na sua conhecida palestra Where Good Ideas Come From (De Onde Vêm as Boas Ideias?), argumenta que as grandes inovações raramente nascem de momentos isolados de genialidade.

Pelo contrário, surgem daquilo que ele chama de “redes de intuições”: pequenas ideias incompletas que se encontram, interagem e, ao longo do tempo, amadurecem até se transformarem em descobertas revolucionárias

Ambientes deste tipo florescem onde as pessoas se reúnem regularmente para conversar e trocar ideias. Neste sentido, a cafetaria era muito mais do que um local para beber café. Ao contrário das tabernas e dos bares, centrados no álcool e no entretenimento, as cafetarias promoviam a reflexão, a atenção e a interacção intelectual.

Não é por acaso que muitas das instituições e ideias associadas ao Iluminismo encontraram terreno fértil em espaços cuja origem remonta à cultura do café desenvolvida no mundo muçulmano.

Muitas das instituições que moldaram a civilização ocidental moderna nasceram destes ambientes. O Edward Lloyd’s Coffee House, por exemplo, evoluiu para a Lloyd’s of London, uma das mais influentes instituições seguradoras do mundo. Jornais, sociedades científicas e movimentos políticos tiveram frequentemente a sua origem em conversas realizadas em torno de uma chávena de café.

Assim, uma bebida cultivada e popularizada no seio da civilização islâmica ajudou a criar os espaços que favoreceram o desenvolvimento do comércio europeu, do jornalismo e do debate público.

A história do café ilustra uma realidade mais ampla: as civilizações não crescem isoladamente, mas através do intercâmbio. A civilização Islâmica serviu como ponte através da qual ideias, tecnologias e práticas culturais viajaram de África e da Ásia para a Europa.

O café foi apenas uma entre muitas contribuições. Os sábios muçulmanos preservaram e desenvolveram a filosofia grega, fizeram avanços na medicina, matemática e astronomia, introduziram novos produtos agrícolas, aperfeiçoaram hospitais e instituições de ensino e estabeleceram práticas comerciais que influenciaram o mundo moderno.

Reconhecer estas contribuições não diminui as realizações do Ocidente. Pelo contrário, recorda-nos que a civilização é um empreendimento humano colectivo. A Europa construiu-se sobre fundamentos herdados de diversas culturas, incluindo o mundo muçulmano, tal como a própria civilização islâmica beneficiou anteriormente das tradições persas, indianas, gregas e africanas.

A história do café ensina-nos uma importante lição: as culturas florescem não quando se rejeitam mutuamente, mas quando aprendem umas com as outras.

Como escreveu o sábio muçulmano Sheikh Abd al-Qadir, em 1588: “O café é o ouro do homem comum e, tal como o ouro, proporciona a cada pessoa uma sensação de luxo e nobreza.”

Em cada chávena de café consumida actualmente permanece um discreto lembrete de que uma das tradições mais apreciadas do mundo faz também parte do legado duradouro da civilização muçulmana e da sua contribuição para o desenvolvimento do Ocidente.

Por: Ibn Bacar