A comunicação islâmica em Moçambique está a passar por um período de forte dinamismo e crescimento visível, num nível nunca antes registado. Multiplicam-se as páginas de Facebook, canais de YouTube, perfis de TikTok e grupos de WhatsApp que se dedicam à partilha de conteúdos religiosos, reflexões teológicas e promoção dos valores humanos e espirituais do Isslam.

Este crescimento reflecte a vitalidade da comunidade e o desejo de aproximar a mensagem religiosa a nova geração no ambiente digital. No entanto, esta louvável expansão embate num obstáculo metodológico e ético: o uso descontrolado e sem critério das ferramentas de Inteligência Artificial (IA).

A obsessão por números, visualizações e pela produção em massa de conteúdos está a sobrepor-se à ética e à verdade teológica. A Inteligência Artificial tornou-se o assistente predilecto de muitos criadores de conteúdo e gestores de canais islâmicos no nosso país.

De forma rápida e sem custos, a IA escreve guiões para vídeos, cria reflexões espirituais, traduz textos e gera imagens ou vozes artificiais para ilustrar palestras. O problema não reside na tecnologia em si, mas sim na delegação cega da autoridade religiosa a sistemas algorítmicos.

A comunicação no Isslam não se resume à mera transferência técnica de dados ou à busca por “likes”. Ela fundamenta-se em princípios éticos rígidos consagrados no Alcorão e nos ditos do Profeta Muhammad (S.A.W.), como o discurso directo, honesto e baseado na verdade factual, como afirma o capítulo 33, versículo 70, do Alcorão: “Ó crentes! Temei a Allah e falai (sempre) palavras apropriadas” (Tradução do Sheikh Aminuddin Muhammad).

Quando um criador de conteúdo recorre a ferramentas de IA para gerar explicações teológicas sem uma verificação humana rigorosa, abre-se a porta para o fenómeno chamado “alucinações”, termo usado pelos cientistas para descrever quando a IA inventa dados.

As alucinações ocorrem quando os modelos de linguagem geram respostas incorrectas ou inventadas com total confiança, devido ao seu funcionamento baseado em previsões estatísticas de palavras e não na compreensão real de factos. Este fenómeno só pode ser combatido através de técnicas como a pesquisa em bases de dados reais e consultas com supervisão humana.

O risco de misturar interpretações erradas, inventar ou descontextualizar versículos do Alcorão e ditos do Profeta Muhammad (S.A.W.), ou ainda deturpar preceitos da jurisprudência islâmica, deixou de ser uma hipótese teórica e passou a ser uma realidade diária nas nossas redes sociais.

A tradição islâmica sempre se baseou numa corrente de transmissão de conhecimento que garante a confiança e a origem humana de quem ensina. Uma máquina, por não ter intenção espiritual nem julgamento moral, não possui essa linhagem de transmissão. Ela apenas repete padrões de dados retirados da internet, que frequentemente trazem preconceitos culturais ocidentais ou visões erradas da própria religião.

Para reverter este cenário e elevar a qualidade da nossa comunicação, as instituições, os criadores de conteúdo e os comunicadores islâmicos precisam de traçar uma linha clara de actuação. A IA deve ser vista como um meio de suporte logístico e nunca como a fonte emissora ou decisora da mensagem.

Na minha visão, a transformação digital tornou-se um processo irreversível. Contudo, a comunicação não pode ser automatizada ao ponto de perder a sua essência.

Para harmonizar a tecnologia com a ética islâmica, o caminho começa com a supervisão: garantindo que nenhum texto ou tradução gerado por inteligência artificial seja publicado sem a revisão e validação de um álimo (teólogo) ou académico especializado na matéria em questão.

Além disso, os criadores de conteúdo devem valorizar a cultura local, substituindo imagens artificiais genéricas por visuais que reflictam a verdadeira identidade dos muçulmanos moçambicanos.

Outro ponto crucial é a transparência, informando o público sempre que a IA for usada na criação dos conteúdos, como, por exemplo, neste artigo, onde utilizei a inteligência artificial para auxiliar na correcção ortográfica.

Por fim, é essencial investir na formação contínua, promovendo debates e workshops que preparem os comunicadores para usar estas ferramentas digitais com responsabilidade e respeito pela sua fé.