Já há muito que tenho estado a reflectir sobre o motivo por que as religiões dão muita ênfase à Paz, pois esta palavra é repetidamente citada nas Escrituras Sagradas. Por exemplo, consta que Deus é a Paz, e a Paz provém d’Ele. Por outro lado, a religião instituiu a saudação da Paz, recomendando que sempre que alguém se encontre com outra pessoa, deve saudá-la com a saudação da Paz, dizendo: “As-salaamo Ãlaikum”, que significa: “Que a Paz esteja convosco”. À esta saudação de Paz deve-se retribuir também com a saudação de Paz. Esta forma de saudação é a mesma que foi usada por Jesus Cristo (que a Paz esteja com ele), pois consta na Bíblia, S. Lucas, 24: 36 e S.João, 20: 19, que, quando Jesus se apresentou perante os doze apóstolos, disse: “Paz seja convosco”. E até pelo menos às décadas de 60 e 70 os padres celebrantes de missas evocavam várias vezes: “A Paz esteja convosco”, ao que os presentes respondiam: “E contigo também”. Já o profeta Moisés (que a Paz esteja com ele) saudava os seus seguidores (o povo de Israel) com a Paz, daí que nos meios religiosos judeus ainda se use como saudação o “Shaloom” que significa Paz. Encontramos uma forma de saudação semelhante na religião hindu quando os crentes desta religião dizem: “Aum Shanti”! Compreendi que as Escrituras Sagradas dão ênfase à Paz devido à sua importância nas nossas vidas, mas raras são as vezes que nos apercebemos dessa importância, e só a valorizamos quando ela deixa de estar entre nós como é o nosso caso, pois hoje choramos e clamamos pela Paz por não a termos. Este é o comportamento típico do Ser Humano, pois só damos valor a algo quando já não temos. Por exemplo, enquanto usufruímos de boa saúde, não a valorizamos, e só quando a perdemos é que começamos a dar-lhe o valor que ela tem na nossa vida. Isto acontece também com outras coisas da vida. Agora a questão é: No nosso Mundo actual, em que existem grandes diferenças e divergências entre um Homem e outro, como podemos evitar o conflito e conseguirmos viver uma vida de Paz e tranquilidade? A única forma de se alcançar esse objectivo é respeitarmo-nos uns aos outros. De um lado temos a arrogância que é a fonte de todas as maldades, e de outro temos a humildade que é a fonte de todas as bondades. Uma vida cheia de Paz está relacionada à maturidade. Cada um de nós tem as suas convicções, e isso é um elemento necessário para se passar uma vida perfeita. Qualquer pessoa gosta da sua mãe, pois amar a mãe é um sentimento natural. Mas amar a sua mãe não significa odiar a mãe dos outros, pois é completamente possível amar a sua mãe e ao mesmo tempo respeitar a mãe dos outros, sem necessariamente ter de reconhecer a mãe dos outros como sua mãe. O Ser Humano por natureza tem uma vasta capacidade de albergar dentro de si várias coisas diferentes e contraditórias. Para se viver em harmonia e Paz na sociedade, não é imperioso que se acabe com as diferenças, mas sim, saber viver com elas, pois tanto as divergências como as diferenças são partes integrantes da natureza, sendo, portanto, absolutamente impossível eliminá-las. Por isso continuaremos sempre diferentes na opinião, na maneira de ser, nas convicções religiosas, na cor da pele, na etnia, etc. Nessas condições, para se criar e desenvolver a harmonia social é necessário que nos respeitemos mutuamente, e não apenas nos reconhecermos mutuamente. As diferenças e divergências no Mundo não são um mal, nunca o foram. Pelo contrário, são um bem, e aqui reside o segredo do progresso humano. É nas diferenças e divergências que as ideias se desenvolvem, e a beleza e a riqueza dos povos se manifestam. A beleza de um jardim vem da diversidade de cores das suas flores. Os conflitos surgem quando algumas pessoas não compreendem este ponto importante, sendo o que nos é dado ver um pouco por todo o lado, onde as diferenças e divergências não são toleradas. E o resultado disso são os conflitos e as crises. Hoje muitos povos estão vivendo em crises resultantes de guerras e conflitos. Os governos são obrigados a desviar avultadas somas de dinheiro para se comprar armamento e outro equipamento bélico, em detrimento de outras actividades tendentes a promover o progresso e a melhoria de vida dos cidadãos. Vivemos hoje uma era de crise, em que os preços, seja do que for, subiram em espiral, e com tendência de agravamento constante. A única coisa que baixou é o preço do Ser Humano e da sua vida. Aliás, o Ser Humano já deixou de ter qualquer valor, pois é morto como se de um insecto se tratasse. Vejamos o exemplo do que está a acontecer na Síria, no Iraque, no Irão, no Afeganistão, Iémen, um pouco por alguns países africanos, incluindo aqui, no nosso Moçambique. Hoje quando nasce um animal, por exemplo, um macaco no jardim zoológico, o evento é celebrado, mas o nascimento de um Ser Humano já não é celebrado. Temos que reconhecer a graça de Deus em tudo o que Ele nos proporcionou, pois o mérito de tudo isso é exclusivamente d’Ele. Se a comida está muito deliciosa, o mérito não é do chefe / cozinheiro, mas sim da graça de Deus, que nos deu a vida, pois se a não tivéssemos, a boa comida, a boa roupa, a boa casa, etc., não nos serviriam de nada. Não é o alarme que desperta a pessoa, mas sim a graça de Deus, pois Ele é que nos deu a vida. E se alguém duvida disto então que experimente ligar um despertador ou alarme junto a um cadáver, para ver se acorda! Deus é a Paz, e a Paz provém d’Ele. Vamos todos pedir que Ele nos faça viver em Paz, já que quer parecer que estamos à procura dela de forma errada, e por isso ela não aparece. Por: Sheikh Aminuddin Mohamad