O aumento da violência física, sexual e doméstica, agora potenciado pelo assédio no ambiente digital, contrasta com os ensinamentos teológicos apresentados pela Álima Kamikazi.

Segundo a teóloga, a religião veio historicamente para libertar a mulher de uma condição de “propriedade” e “castigo”, comum em sociedades pré-islâmicas.

A Álima traça um paralelo entre o passado e o presente, recordando que, antes do advento do Isslam, a mulher não tinha direito à expressão, à herança ou à escolha.

“Antes do Isslam, nos países árabes e mesmo em alguns contextos africanos, a mulher era tratada como uma propriedade. Se um homem morresse, a mulher era herdada pelos familiares do marido. Ela vivia como uma escrava”, explica a teóloga.

Com a consolidação do Alcorão e da Sunnah (tradição profética), a mulher passou a ter garantias fundamentais.

“O Isslam trouxe o direito ao consentimento no casamento, a mulher deve casar com quem ela gosta, e o direito à educação e à herança. Hoje, a mulher muçulmana tem direitos e deveres claros”, explicou.

“No Isslam é proibido bater na mulher”, diz a teóloga

Questionada sobre o posicionamento da religião perante homens que cometem violência psicológica, física ou económica, a Álima sublinhou que o comportamento agressivo anula a legitimidade da união.

Para a teóloga, a violência económica, onde o homem nega sustento ou dignidade à esposa, é tão grave quanto a física.

“No Isslam é proibido bater na mulher. O veredicto ou o castigo para o homem que comete violência psicológica, doméstica ou económica é o Talak (divórcio). Um homem que não sustenta, não veste ou agride a esposa, perde o direito de estar com ela”, afirma.

A teóloga destaca que o conceito de “comandante” ou “chefe” da família, muitas vezes mal interpretado, refere-se estritamente à responsabilidade de protecção e provisão.

“O homem deve controlar a esposa na forma de sustento e orientação, nunca de agredir ou arrancar a sua liberdade”, elucidou.

“Mulher é uma nação. Perder uma mulher é perder toda a nação

Para travar a onda de feminicídios e abusos em Moçambique, a Álima defende que o isolamento doméstico é um factor de risco. A teóloga apela a uma maior abertura para que as mulheres participem em campanhas de saúde pública, educação e encontros comunitários.

“Mulher é uma nação. Perder uma mulher é perder toda a nação. Se ela tem educação, seja ela religiosa ou académica, ela saberá orientar a família e defender-se. O Isslam não proíbe a mulher de estudar ou trabalhar”, comentou.

A especialista sugere ainda que as lideranças islâmicas e o Governo colaborem mais estreitamente. Para a teóloga, quando a mulher muçulmana ocupa espaços de debate sobre saúde, abordando temas como cancro do colo do útero, gravidezes precoces e prevenção de doenças, ela quebra o ciclo de vulnerabilidade.

“Muitas vezes estamos ‘encaixadas’ em casa e não sabemos como certas doenças são transmitidas ou como nos prevenir. Precisamos dessas oportunidades de reuniões públicas fora de casa para aprender e interagir”, conclui a teóloga, reforçando que o conhecimento é a ferramenta mais eficaz contra a humilhação e a violência.