Falando da auscultação, o líder religioso recorreu à sua própria experiência na histórica “Agenda 2025” para alertar que os planos estratégicos correm o risco de se tornarem obsoletos se não saírem do papel, exigindo que o actual processo resulte em acções concretas baseadas na justiça e na igualdade de tratamento.

“Eu fiz parte da Agenda 2025, que era mais ou menos igual a esta… Esperamos que desta vez seja melhor”, desabafou, instando a que o presente diálogo traga resultados reais para a sociedade.

O Sheikh Aminuddin Muhammad destacou o papel das confissões religiosas como pilares na manutenção da ordem pública e da moralidade, lamentando, contudo, a total falta de apoio institucional.

“Nós somos parceiros do governo. O Moçambique de hoje está completamente desmoralizado com drogas e prostituição. Existem leis, mas os grandes parceiros na execução e implementação dessas leis somos nós, os religiosos”, sublinhou.

Apesar deste papel activo no combate aos males sociais, o líder do Conselho Islâmico de Moçambique denunciou que, ao contrário do que sucede noutros países onde o Estado comparticipa despesas básicas como água e electricidade em locais de culto, em Moçambique as instituições sem fins lucrativos são tratadas como empresas comerciais.

“As nossas organizações não são lucrativas. Se investimos em lojas, é para conseguir fundos para implementar os nossos programas de apoio social. Mas o governo não facilita, cobra os impostos por inteiro. Como é que as pessoas religiosas vão trabalhar sem fundos?”, questionou.

Retenção de propriedades nacionalizadas, burocracia em doações e altos taxas para estrangeiros

Num dos pontos da auscultação, o sheikh tocou na retenção de bens nacionalizados após a independência. Ele apontou a existência de uma dualidade de critérios que penaliza directamente a comunidade muçulmana.

“Depois da independência, o governo tinha nacionalizado tudo. Neste momento, devolveu aos católicos todas as propriedades deles, menos aos muçulmanos. Para nós, somos tratados como enteados. Nampula, Beira, Quelimane têm grandes propriedades nossas e não devolvem”, criticou.

O Sheikh relatou que até mesmo as doações humanitárias internacionais destinadas a mitigar o sofrimento da população e apoiar estudantes carenciados enfrentam barreiras alfandegárias severas.

Recentemente, a instituição que dirigi teve de pagar 150 mil meticais para levantar 250 agasalhos doados pelo Egipto para os alunos.

“São coisas de distribuição gratuita. Será que não há gente ali com coração, que sente o sofrimento da população? Quando há uma calamidade e um camião chega à fronteira, dizem que temos de fazer um pedido formal ao Ministério. O processo burocrático demora e o camião fica retido”, lamentou.

Na área da educação, onde a comunidade assegura o ensino e a alimentação gratuita a centenas de adolescentes e jovens, o Sheikh lamentou a falta de sensibilidade do Executivo face às taxas de residência cobradas a estudantes estrangeiros de países lusófonos que pretendem estudar em Moçambique, bem como aos professores internacionais.

“O DIRE custa mais de 50 mil meticais por pessoa. Quando um país se torna destino de estudantes, isso eleva o prestígio da nação. Nós não estamos a pedir privilégios ou tratamento especial, mas que o governo crie uma lei para facilitar, cobrando pelo menos metade”, sugeriu, revelando que há dezenas de estudantes e professores à espera de vistos que acabam recusados.

“Não pedimos tratamento especial, queremos justiça”

A finalizar a sua intervenção, o Sheikh Aminuddin Muhammad manifestou profunda indignação com a associação preconceituosa entre a religião islâmica e o terrorismo, que tem resultado na retenção de investidores e benfeitores de países do Golfo Pérsico, como o Catar, Bahrein e Arábia Saudita, nos postos fronteiriços e aeroportos nacionais.

O líder relembrou que os muçulmanos foram os primeiros a combater a insurgência. “Nós, com o Conselho Islâmico, fomos os primeiros a alertar o governo sobre a existência daquele grupo em Cabo Delgado”, lembrou.

O líder religioso condenou as detenções arbitrárias baseadas em aspectos religiosos e o facto de jornalistas estarem a ser instrumentalizados para manchar o Isslam.

Para ultrapassar os constrangimentos aeroportuários, onde relatou episódios de delegados árabes que foram recambiados por falta de comunicação, o Sheikh sugeriu que o país invista na qualificação dos serviços de migração, seguindo o modelo de nações desenvolvidas.

“Temos de ter gente competente na imigração que domine as principais línguas do mundo. Nós não estamos a pedir um tratamento especial, queremos justiça. Todos nós lutámos pela independência”, concluiu.