O teólogo alertou que o maior erro da sociedade actual é a visão reducionista que limita a leitura do Alcorão a tratamentos de possessão, negligenciando a cura de vícios morais como a inveja e a arrogância num mundo cada vez mais materialista.

Ao estabelecer um paralelo entre a saúde física e a espiritual, o Sheikh sublinhou que a medicina se divide em dois pilares fundamentais, a do corpo, voltada para as patologias clínicas, e a dos corações, destinada a curar os vícios morais.

“A medicina dos corações cuida de problemas espirituais: inveja, arrogância, ganância, orgulho, vaidade, desobediência, hipocrisia e ostentação”, explicou o teólogo, instigando os muçulmanos a reflectirem sobre as suas prioridades ao questionar qual teria sido a última vez que cuidaram do coração, não como órgão físico, mas como a bússola espiritual colocada por Allah para orientar o corpo.

O ponto central da sua crítica incidiu sobre a interpretação limitada que a sociedade moçambicana atribui à Ruqyah. Segundo o Sheikh, a leitura do Alcorão tem sido vulgarizada como um mero “tratamento de choque” ou uma intervenção de emergência para casos de feitiçaria e possessão, ignorando-se o seu vasto potencial preventivo e educativo.

“O nosso maior erro é de definirmos o ruqyah de uma forma reducionista”, afirmou o Sheikh, lamentando que a prática seja frequentemente vista apenas como um recurso para afastar djinni (génios) ou o mau-olhado.

Para o orador, é contraditório que os indivíduos busquem curas milagrosas enquanto mantêm comportamentos prejudiciais, como a mentira constante, a falta de oração (sualat) e a desobediência a Allah.

O teólogo defende que a Ruqyah deve ser compreendida como uma “higiene espiritual quotidiana”, essencial num mundo moderno que, através das redes sociais, actua como um amplificador de doenças do espírito, como a calúnia e a busca incessante por validação.

Ao reiterar que a prática é, na verdade, uma medicina integral e um programa de vida, o Sheikh Saide Habibo destacou que a espiritualidade se manifesta em gestos simples e constantes, como recitar o nome de Allah antes das refeições ou as súplicas ao dormir.

“Não é um momento de crise. É uma forma de ser e de estar todos os dias, em todos os momentos”, frisou.

Ao encerrar, Sheikh Saide exortou os jovens a reflectirem, incentivando-os a procurar as raízes das suas aflições dentro de si mesmos antes de apontarem culpados externos, reforçando que a verdadeira reforma começa pela disciplina do coração.