Sob lema “Celebrar a Diversidade Religiosa, Promovendo os Laços de Solidariedade entre os Moçambicanos”, o evento dirigido pelo Secretário de Estado, Vicente Joaquim, serviu de plataforma para o Sheikh Daúde reafirmar que o Isslam e a laicidade do Estado convergem num projecto de “nação justa, coesa e respeitadora da dignidade de cada cidadão”.

Durante a sua intervenção, o líder juvenil destacou a necessidade de proteger a convivência pacífica contra a instrumentalização política e o extremismo, reforçando que “conhecer o outro, verdadeiramente conhecer, não apenas tolerar, é o caminho” para o futuro de Moçambique.

O sheikh destacou que a pluralidade religiosa em Moçambique não é uma abstracção, mas a “realidade concreta de cada bairro, de cada família, de cada escola”. Segundo ele, o Isslam não vê a diversidade como um erro histórico, mas como uma vontade divina expressa no Alcorão, que reconhece que os seres humanos “continuarão a diferir”.

Este princípio teológico de não-coerção em matéria de fé é a base para uma liberdade religiosa autêntica, defendendo explicitamente que “não há coerção em matéria de religião” , pois o crente que abraça a fé por convicção “vale mais do que o que a professa por pressão”.

Convergência entre o estado e a religião na busca da paz

O teólogo traçou um paralelo entre a fé e a laicidade do Estado moçambicano, esclarecendo que ambos convergem num projecto comum de justiça e respeito pela dignidade humana.

Ao abrigo do artigo 12.º da Constituição, a laicidade garante que o Estado não professa uma religião oficial e que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Sheikh Daúde enfatizou que existe uma interdependência funcional, onde as comunidades religiosas são “parceiros essenciais do Estado em áreas como a educação, a saúde e o apoio social”.

Ele reforçou que “o Estado laico precisa das comunidades religiosas para chegar onde as suas estruturas não chegam” , enquanto as religiões precisam da laicidade para garantir a igualdade no espaço público.

Abordando os desafios actuais, o representante do Conselho Islâmico alertou para os riscos da instrumentalização política da religião, afirmando que “o maior perigo para a convivência inter-religiosa não vem da teologia, mas da política” , especialmente quando atores políticos utilizam a fé como “capital eleitoral”.

Relativamente à crise em Cabo Delgado, o Sheikh foi categórico ao afirmar que o extremismo violento representa uma “ruptura, não uma expressão, das tradições islâmicas moçambicanas”. Para ele, a solução exige não apenas força militar, mas investimento em educação e o “fortalecimento das lideranças islâmicas moderadas”.

Por fim, a intervenção focou-se no papel crucial da juventude como construtora de pontes, sendo o grupo que mais tem a ganhar ou perder com a estabilidade do país. Sheikh Ibramogy apelou aos jovens para que combatam a desinformação nas redes sociais e construam “amizades genuínas que cruzem fronteiras religiosas”.