A sociedade contemporânea é marcada pela constante exposição da vida privada, pela procura incessante de validação nas redes sociais e pela construção de identidades assentes, muitas vezes, na imagem, no consumo e no reconhecimento público.

“Nunca foi tão fácil parecer bem sem necessariamente estar bem”. “Nunca foi tão simples aparentar sucesso sem que este corresponda a uma realidade interior”. Em outras palavras, vivemos numa época em que a aparência adquiriu um valor desproporcional.

Para melhor discutirmos isto, coloco para a nossa reflexão duas ou até três questões:

Como deve o ser humano ser verdadeiramente avaliado?

Será pela sua aparência, pela riqueza que possui, pela influência que exerce, pelas roupas que veste, pelo cargo que ocupa ou pela notoriedade que alcançou?

Ou existirá um critério mais justo, mais profundo e mais duradouro?

Para isto encontrei alguns guias que poder-nos-ão auxiliar na busca por respostas. A começar pelo Alcorão, livro divino dos muçulmanos, que a meu ver estabelece um princípio que desmonta qualquer hierarquia construída sobre critérios superficiais.

“Ó humanidade! Nós vos criámos de um homem e de uma mulher e fizemos de vós povos e tribos para que vos conheçais. Em verdade, o mais honrado dentre vós, perante Allah, é o mais piedoso.” (Surat Al-Hujurāt, 49:13)

Este versículo constitui, na minha percepção, um dos mais poderosos manifestos da igualdade humana. Antes de se dirigir aos crentes, Allah (Deus) dirige-Se à humanidade inteira, recordando que todos descendemos da mesma origem.

Ou seja, a diversidade de povos, etnias, línguas e culturas não foi criada para estabelecer superioridades, mas para promover o conhecimento mútuo e a convivência.

Ao mesmo tempo, Allah estabelece o único critério legítimo de distinção entre os seres humanos, a consciência permanente de Allah, que se reflecte ou traduz na sinceridade da fé, na retidão moral e na prática das obras socialmente apreciáveis.

Assim, não é a riqueza que torna alguém superior, nem a posição social, nem o poder político, e muito menos a cor da pele. A verdadeira nobreza é espiritual.

Esta verdade é reforçada pelo Profeta Muhammad (SAW), quando afirmou: “Allah não olha para os vossos corpos nem para as vossas aparências, mas olha para os vossos corações e as vossas obras.”

Se o Alcorão estabelece quem é verdadeiramente honrado perante Allah, este hadith (dizer do profeta Muhammad, s.a.w) explica como Allah faz essa avaliação. Enquanto os seres humanos se deixam impressionar pela beleza exterior, pela fama ou pelo estatuto social, Allah conhece aquilo que ninguém consegue observar, as intenções, a sinceridade, a humildade e o carácter de cada pessoa.

Infelizmente, a sociedade moderna parece caminhar precisamente na direcção contraria, hoje em dia, o valor de um indivíduo passa a ser medido pela marca da roupa que veste, pelo carro que conduz, pelo bairro onde reside, pelo número de seguidores que possui nas redes sociais ou pela quantidade de riqueza que acumula.

As plataformas digitais, embora constituam ferramentas extraordinárias de comunicação e aprendizagem, intensificaram uma cultura de comparação permanente. Muitos vivem preocupados em parecer felizes, bem-sucedidos e realizados, quando, na realidade, enfrentam inseguranças, ansiedade e solidão. A aparência passou a ser cuidadosamente construída, enquanto a essência permanece esquecida.

As consequências desta inversão de valores tornam-se cada vez mais evidentes. Crescem o individualismo, o consumismo, a competição desenfreada e a necessidade constante de aprovação pública. As relações humanas tornam-se mais superficiais, enquanto o carácter, a honestidade e a integridade são gradualmente substituídos pela imagem e pela popularidade.

Mais preocupante ainda é verificar que esta lógica começa, por vezes, a infiltrar-se nos próprios espaços religiosos. Em determinados contextos, algumas pessoas passam a avaliar a religiosidade dos outros pela aparência exterior, pela forma de vestir, pelo comprimento da barba, pelo tipo de véu utilizado ou pela visibilidade pública da sua prática religiosa.

Embora estes elementos possam fazer parte da identidade islâmica, não constituem, por si só, o critério pelo qual Allah distingue os Seus servos. A religiosidade jamais deve transformar-se num instrumento de competição moral ou numa demonstração de superioridade perante os outros.

É precisamente neste ponto que o Isslam apresenta um dos exemplos mais extraordinários de igualdade alguma vez vividos pela humanidade. Não se limita a proclamar princípios, transforma-os em práticas concretas.

O Hajj, a peregrinação à Casa Sagrada de Allah, talvez seja a maior manifestação desta igualdade universal. Todos os anos, milhões de muçulmanos provenientes de praticamente todos os continentes reúnem-se num mesmo local, pessoas que falam diferentes línguas, pertencem a culturas distintas e possuem condições económicas completamente diversas. Contudo, ao entrarem no estado de ihram, todas essas diferenças desaparecem.

O rei e o agricultor, o empresário e o operário, o académico e o analfabeto, o governante e o cidadão comum abandonam as suas vestes habituais e revestem-se de duas simples peças de tecido branco.

Nenhuma marca identifica quem é mais rico. Nenhum símbolo distingue quem ocupa uma posição de poder. Nenhuma insígnia revela quem possui maior influência. Todos se apresentam perante Allah exactamente da mesma forma, recordando que o verdadeiro valor humano nunca esteve naquilo que se veste, mas naquilo que se traz no coração.

A igualdade manifesta-se igualmente durante a permanência em Muzdalifa. Depois de um dos momentos mais intensos da peregrinação, milhões de pessoas passam a noite ao relento. Dormem sobre a terra, sob o mesmo céu, utilizando o chão como leito.

Nesse momento desaparecem, ainda que temporariamente, os hotéis luxuosos, as residências confortáveis e os privilégios sociais. Não existem espaços reservados para reis nem áreas exclusivas para milionários. Todos experimentam a mesma simplicidade, a mesma dependência de Allah e a mesma condição de servos diante do Criador.

Talvez nenhuma experiência humana simbolize de forma tão poderosa que toda a grandeza terrena perde significado quando o ser humano se coloca perante o seu Senhor.

Mas a maior demonstração desta igualdade não acontece apenas uma vez na vida, durante o Hajj. Ela repete-se todos os dias, cinco vezes por dia, através da Swalat, a oração obrigatória. Na oração, desaparecem todas as barreiras sociais, o rico coloca-se ao lado do pobre.

O branco permanece ao lado do negro, o árabe reza ao lado do africano, do asiático, do europeu ou do americano. O governante e o governado alinham os ombros na mesma fila. Todos recitam as mesmas palavras, realizam os mesmos movimentos e colocam a fronte no mesmo chão perante o mesmo Senhor.

Não existem lugares reservados para os mais importantes nem posições privilegiadas para os mais influentes. A oração diária obrigatória ensina que nenhum estatuto humano confere superioridade diante de Allah, todos permanecem de pé perante Ele, todos se inclinam perante Ele, todos se prostram perante Ele.

Até no último momento da existência humana reafirma-se esta igualdade, independentemente da posição ocupada em vida, seja um rei, um presidente, um empresário, um professor ou um trabalhador humilde, todos regressam ao seu Senhor da mesma forma.

Na tradição islâmica, o corpo é lavado, envolvido num simples pano branco (kafan) e colocado na sepultura sem joias, sem coroas, sem medalhas, sem títulos e sem qualquer bem material. Tudo aquilo que diferenciava as pessoas neste mundo permanece para trás. O que acompanha o ser humano é apenas aquilo que Allah sempre declarou ser verdadeiramente valioso, a fé sincera, as boas obras e um coração íntegro.

Perante o que acima foi arrolado, acredito que seja justo assumirmos que se a humanidade continuar a construir os seus critérios de valor sobre a aparência, a riqueza e o reconhecimento social, temos que esperar que as desigualdades, a ansiedade, o vazio espiritual e a fragmentação das relações humanas continuem a crescer.

Uma sociedade que valoriza mais aquilo que se exibe do que aquilo que se é corre o risco de formar indivíduos cada vez mais preocupados com a aprovação dos outros e cada vez menos atentos ao desenvolvimento do próprio carácter.

Contudo, o futuro não precisa de seguir esse caminho. O progresso tecnológico não é incompatível com a espiritualidade, nem a modernidade exige o abandono dos valores. É possível usufruir dos benefícios da ciência, da comunicação digital e do desenvolvimento económico sem permitir que estes determinem o valor do ser humano. O verdadeiro desafio consiste em utilizar os recursos da modernidade sem perder de vista aquilo que é essencial.

Talvez seja precisamente esta a maior contribuição da religião islâmica para o mundo contemporâneo, recordar que o ser humano vale muito mais pelo que é do que pelo que possui, muito mais pelo carácter que cultiva do que pela imagem que projeta, muito mais pela sinceridade da sua fé do que pela fama que conquista.

Não é por acaso que, no seu Sermão de Despedida, pronunciado diante de dezenas de milhares de companheiros, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou uma das mais poderosas declarações de igualdade alguma vez registadas na história:

“Ó pessoas! O vosso Senhor é Um e o vosso pai (Adam) é um. Nenhum árabe é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe; nenhum branco é superior a um negro, nem um negro é superior a um branco, exceto pela piedade…”

Mais de catorze séculos depois, esta mensagem continua surpreendentemente actual e valiosa. Num mundo onde persistem o racismo, a discriminação, a desigualdade social e a obsessão pela aparência, o Islam continua a recordar que a verdadeira dignidade humana não depende da cor da pele, da nacionalidade, da riqueza, do poder ou da posição social.

Num tempo em que quase tudo pode ser cuidadosamente encenado, a essência continua a ser o único lugar onde não existem máscaras. E é precisamente aí, no coração, nas intenções e nas obras, que Allah mede o verdadeiro valor do ser humano.