Análises de especialistas revelam um consenso surpreendente: embora reconheçam a guerra como uma realidade, os textos priorizam a paz e a luta armada é estritamente condicionada à autodefesa, à proporção e a directrizes éticas rigorosas, desautorizando a agressão e a violência indiscriminada.
O Alcorão – guerra defensiva e a ética da jihad
De acordo com Mehmet Ozalp, da Universidade Charles Sturt, o Alcorão e os ensinamentos do Profeta Muhammad (SAW) estabeleceram directrizes claras para a condução da guerra em um ambiente hostil do século VII.
A religião islâmica introduziu o termo “jihad”, uma luta legal e moralmente justificada, que inclui, mas não se limita, a conflitos armados distinguindo-o da palavra árabe usual para guerra, “harb”. A jihad no contexto bélico refere-se a lutar por uma causa justa, sob directrizes éticas e legais.
O Profeta Muhammad (SAW), em Makkah por volta dos anos 610 a 622, priorizou a não-violência activa mesmo diante de perseguição e sofrimento, demonstrando que a luta armada não é permitida entre membros da mesma sociedade. A permissão para lutar veio apenas após a migração para Madina, como resposta a ataques de agressores maquenses.
A justificativa para a guerra é encontrada nos versículos 39 e 40 do capítulo 29 do Sagrado Alcorão, que permitem a luta armada em resposta a injustiças, como ser expulso da terra natal ou ser atacado por causa da crença.
“Os crentes contra os quais a guerra é travada recebem permissão para lutar em resposta, pois foram injustiçados… Aqueles que foram expulsos de sua terra natal contra todos os direitos, sem outra razão senão porque dizem: ‘Nosso Senhor é Deus’ […]” (All Hajj 39-40)
Esta passagem estabelece a guerra justa como defensiva, condenando a agressão. O Alcorão enfatiza que se o inimigo se inclina para a paz, os muçulmanos também devem fazê-lo. Além disso, a acção militar deve ser proporcional (2:294), e o objectivo é acabar com as hostilidades, não aniquilar o inimigo.
O texto proíbe a agressão (“Deus não ama os agressores” – 2:190) e inclui regras detalhadas de conduta, como o tratamento humano de prisioneiros e a proibição de matar mulheres, crianças, idosos ou doentes, e de destruir locais de culto.
A Bíblia – diversidade de ideologias de guerra e o apelo à paz de Jesus
A Bíblia, por sua vez, apresenta a guerra como uma realidade inevitável da vida humana, segundo Robyn J. Whitaker, da Universidade de Divindade. O Antigo Testamento reflecte as experiências de autores e comunidades que vivenciaram vitórias e derrotas.
Em alguns textos, Deus é apresentado ordenando a guerra, como em Deuteronómio 20, onde o povo hebreu é instruído a primeiro oferecer termos de paz, mas, no caso de certos inimigos, a aniquilação total é decretada.
Em outras passagens, a guerra é interpretada como uma punição usada por Deus contra o povo hebreu por se desviar (Juízes 2:14). Há também uma ética subjacente para tratar cativos com justiça (Deuteronómio 21; 2 Crónicas).
Em contraste, os profetas hebreus expressam a esperança de uma época futura de paz (shalom), onde as nações “não aprenderão mais a guerrear” (Miquéias 3:4) e transformarão suas armas em ferramentas agrícolas (Isaías 2:4). A guerra é vista, em última análise, como resultado da pecaminosidade humana.
No Novo Testamento, Jesus rejeita a violência de modo geral, instruindo seu discípulo Pedro a guardar a espada, pois a violência gera mais violência (Mateus 26:52). Seus ensinamentos, como “bem-aventurados os pacificadores” e o mandamento de “amar os seus inimigos”, fornecem uma estrutura ética que os cristãos posteriores usariam para desenvolver ideias de “guerra justa” e pacifismo.
Whitaker ressalta que a Bíblia contém “diversas ideologias de guerra”, permitindo que o leitor encontre justificativas tanto para o conflito quanto para a paz.
A Torá – o reconhecimento da guerra defensiva e a valorização da paz
Para o judaísmo, a tradição, embora não seja pacifista, “valoriza a paz acima de tudo”, e as orações pela paz são centrais na liturgia, conforme explica Suzanne D. Rutland, da Universidade de Sydney. No entanto, há um reconhecimento claro da necessidade de travar guerras defensivas dentro de limites.
A Torá (os Cinco Livros de Moisés) descreve diversas batalhas e estabelece que o serviço militar é obrigatório, mas também define quatro categorias de pessoas isentas, incluindo aqueles que têm medo, para evitar que influenciem outros soldados. Há uma forte ênfase na conduta justa, instruindo que os soldados “devem se guardar de toda coisa má” ao acampar contra inimigos (Deuteronómio 12:10).
O desdém pela guerra é simbolizado pelo fato de o Rei Davi não ter sido autorizado a construir o Templo de Jerusalém devido à sua carreira militar, tarefa reservada ao seu filho Salomão, e que deveria ser construída sem o uso de ferro (que representava a guerra).
A visão de paz para toda a humanidade também é desenvolvida nos escritos proféticos, como em Isaías, que descreve uma era onde as nações “converterão as suas espadas em relhas de arado”.
A tradição judaica, especialmente na Mishná, aborda o conceito de “guerra obrigatória” (milhemet mizvah), que inclui as guerras defensivas, e a “guerra permitida” (milhemet reshut), que é mais aberta e poderia se relacionar com guerras preventivas.
Após séculos de diáspora sem um exército, este debate rabínico sobre o que constitui uma guerra defensiva obrigatória reacendeu com o sionismo e o retorno dos judeus à Terra de Israel no século XX, permanecendo um tema de profunda preocupação e controvérsia.

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