Durante os trabalhos, os participantes focaram na necessidade urgente de transformar o conceito de Unidade Nacional numa prática quotidiana, lamentando que, após décadas de independência, o estigma regionalista e o uso de termos pejorativos para identificar cidadãos com base na sua origem ainda persistam.
“Eu nasci em Nampula e vivo em Maputo há mais de 24 anos, mas até hoje as pessoas do bairro me tratam como ‘xingoando’. Se somos todos irmãos e usamos a mesma bandeira, por que existe essa discriminação?”, desabafou um dos auscultados.
Como resposta a este fenómeno, foi apresentada uma proposta concreta para que o Estado avance com a criminalização efectiva e a punição de actos de discriminação baseados na proveniência regional.
“Quero que o Chefe de Estado elabore um decreto; se alguém me chamar por nomes que não são os meus para me injustiçar, tem que haver uma punição”, reforçou outro interveniente.
No plano económico e de gestão de recursos, a comunidade muçulmana da região centro questionou a actual estratégia de exploração energética, defendendo que o gás natural produzido no país deve ser canalizado prioritariamente para as residências dos moçambicanos.
“O próprio combustível está a sair do país. Por que Moçambique não consegue canalizar o gás para as casas como foi feito com a água?”, questionou um participante, manifestando também preocupação com os prazos de electrificação universal.
“Falava-se que até 2030 todo o Moçambique estaria ligado à energia solar, mas entramos nas zonas suburbanas e em quem viaja pela N1 e vemos que ainda não têm energia”, acrescentou.
A par desta questão, foi defendida a aceleração da regulamentação das finanças islâmicas pelo Banco de Moçambique, de modo a permitir produtos isentos de juros. “O Isslam não permite juros; o governo deve instituir a possibilidade de bancos islâmicos porque muitos muçulmanos acabam por ir contra os seus princípios para fazer negócios”, explicou um líder religioso.
O debate abordou ainda a reforma da Administração Pública e a gestão de conflitos no norte do país, com sugestões para a criação de conselhos de paz locais em Cabo Delgado. “É preciso fortalecer o papel dos líderes religiosos locais para mediar conflitos e desconstruir narrativas extremistas; aquilo não é religião, são criminosos”, defendeu um dos presentes.
No que toca ao funcionamento do Estado, a proposta de digitalização foi vista como essencial para eliminar o favoritismo. “O acesso ao emprego e negócios depende muitas vezes da cor partidária. Precisamos de digitalização para reduzir o contacto humano na burocracia e diminuir o espaço para o suborno”, sugeriu um jovem académico.
Por último, sublinhou-se a importância do pluralismo jurídico e da organização religiosa, propondo-se que a criação de associações islâmicas exija fundamentos teológicos. “Para se abrir uma associação religiosa, devia-se exigir teólogos no grupo, para que não seja qualquer pessoa sem conhecimento a prejudicar o nome do Islão”, concluiu um dos auscultados.

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