Com uma média diária de dois a três funerais na capital, o que representa quase 90 sepultamentos por mês, a comunidade muçulmana debate-se com a falta de espaço físico e com o impacto das agressivas épocas chuvosas que deixaram os solos completamente saturados.

A gravidade do cenário foi descrita por Calú Omar, membro da direcção da Mesquita Muhammad e um dos coordenadores da rede que interliga os sectores funerários islâmicos de Maputo e Matola, que inclui também as mesquitas da Comunidade Mahometana, Chadulia, Anwaril, Hamza, Aly, da Comunidade da Baixa e da Zona 700. 

Segundo o responsável, recintos históricos como o Cemitério de Lhanguene, em Maputo, e o Cemitério de Bedene, na Matola, atingiram o limite crítico.

“A gestão é o grande problema que nós temos, pelo facto, dos cemitérios estarem já superlotados”, apontou Calú Omar, acrescentando que em Lhanguene a política de exumação e reaproveitamento de campas antigas para novos membros da mesma família já não resolve a crise.

“As pessoas têm que passar por cima das campas e isso transtorna também os familiares, porque na hora do funeral as pessoas já não querem saber, destroem os ordenamentos das campas e isso são outros problemas que traz para o controle do próprio cemitério”, acrescentou.

Para além da falta de espaço para a abertura de novas campas, as condições ambientais do solo tornaram-se um desafio dramático para os coveiros e familiares, sobretudo na Matola. A subida das águas subterrâneas faz com que qualquer escavação resulte na inundação imediata da sepultura.

“Devo até dizer que os últimos funerais que foram realizados, a maioria dos corpos tiveram que ser isolados com um plástico porque já tinha água. Todos foram enterrados praticamente como se fosse uma piscina”, revelou o coordenador.

Face à iminência de um colapso na gestão fúnebre, a liderança islâmica tem articulado com os vereadores dos municípios de Maputo e Matola para acelerar um encontro que estude alternativas habituais e defina a transição para novas áreas.

Embora existam terrenos propostos pelas edilidades na zona da Matola e duas parcelas em preparação na Catembe para servir tanto a comunidade cristã como a muçulmana, Calú Omar apela a que se crie desde já uma nova cultura de utilização de cemitérios periféricos que oferecem excelentes condições de solo e acessibilidade.

Actualmente, a manutenção e a limpeza destes recintos contam com o apoio financeiro directo dos familiares e com campanhas de voluntariado coordenadas pela comunidade Mahometana.

O líder manifestou ainda a sua profunda inquietação com a lentidão e a falta de prioridade que as autoridades locais têm demonstrado na cedência e regularização de terrenos para fins fúnebres, comparando a desburocratização de projectos comerciais com os entraves colocados à dignidade humana na hora da morte.

A fechar, Calú Omar deixou um forte apelo à união e ao respeito colectivo pela conservação e zelo das campas por parte de todos os cidadãos, lembrando a inevitabilidade da vida humana e a necessidade de se encarar a gestão dos cemitérios como uma responsabilidade comum e sagrada. 

“Sabemos que a morte vai bater a porta a toda a gente, ninguém está impune, então é bom que a gente, saiba tratar desses lugares”, concluiu.