“Não estamos a dizer para não usar IA, temos que manter o pensamento crítico”, sublinharam os palestrantes, posicionando o juízo humano como o principal escudo contra a uniformização cultural e o declínio das capacidades cognitivas na era digital.
O orador principal, Arafat Cossa, abriu a sessão recorrendo a um ensinamento profético de Abu Hurairah para alertar sobre os perigos da inércia, lembrando que o próprio Profeta Muhammad (S.A.W.) pedia refúgio a Deus contra a preguiça e a incapacidade.
Arafat ilustrou como a dependência tecnológica cega está a criar uma perigosa uniformidade em várias esferas, desde o meio académico ao empresarial.
Dando continuidade à análise dos impactos psicossociais, Yanifa Imbate propôs a divisão da influência da IA na juventude em quatro eixos estruturais, dentre elas aprendizagem, identidade, socialização e o futuro do emprego.
“Às vezes, nós só lançamos a questão e nem lemos aquilo que está ali”, censurou a painelista, detalhando ainda que a imersão em comunidades virtuais tem gerado altos níveis de “”ansiedade social e depressão” devido à comparação constante com realidades idealizadas.
Apesar dos riscos, o painel também apontou caminhos para transformar os desafios em motores de desenvolvimento económico. Sheldon Pagul focou-se nas oportunidades de mercado que surgem devido ao actual défice de informação sobre Moçambique nas bases de dados globais das grandes tecnológicas.
“Nós podemos criar ferramentas específicas e vendê-las a estas plataformas, gerando rendimento”, sugeriu Pagul, criticando as limitações impostas pelas políticas de monetização de redes como o Facebook, Instagram e YouTube no país.
No plano educativo, Omar Teixeira defendeu que a IA veio para complementar e não para substituir a força de trabalho.
“Há algumas décadas, o sucesso académico e profissional baseava-se em quem sabia responder melhor às perguntas. Hoje em dia, baseia-se em quem sabe fazer as melhores perguntas. E o saber perguntar exige pensamento crítico”, sustentou.
Já Riad Sidat trouxe uma abordagem assente nas relações internacionais, definindo a Inteligência Artificial como um instrumento geopolítico de poder e soberania. O especialista alertou para a falta de representatividade cultural nos algoritmos dominantes, que são maioritariamente programados fora de África.
O segundo painel encerrou com um debate aberto, onde a audiência ecoou a urgência de regulamentar a IA no território nacional e de se criarem academias especializadas no sector.
Entre as conclusões partilhadas pelo público, destacou-se o apelo para que os jovens muçulmanos dominem as novas tecnologias sem negligenciar o aprofundamento do conhecimento do Alcorão e da Sunnah, com particular ênfase na inclusão e educação da mulher muçulmana perante as profundas transformações provocadas pela inteligência artificial.

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