Para o líder religioso, que falava em entrevista ao Espaço Islâmico, o Isslam não é apenas uma prática de adoração isolada, mas um convite constante ao desenvolvimento intelectual e humano, desde que pautado pelo compromisso com o Criador.

O Sheikh iniciou sua explanação recordando que o primeiro comando revelado ao Profeta Muhammad (SAW) não foi sobre as obrigações rituais, como a oração ou o jejum, mas sim o comando de ler e aprender.

“Não é por acaso que o primeiro versículo que desceu ao Nabi está relacionado com a leitura, aprendizado e desenvolvimento. Não é possível nós desenvolvermos sem lermos”, lembrou o Sheikh.

No entanto, Sheikh Mubin ressalva que o conhecimento técnico isolado pode ser perigoso. Ele cita o versículo “Iqra, bismi rabbika alladhi khalaq”, que significa “lê, em nome do teu Senhor que te criou”, para ilustrar que a educação deve estar intrinsecamente ligada à ética.

“Só o conhecimento não é suficiente. ‘e necessário conhecimento acompanhado da ética. Existem muitos que lêem, aprendem, e nós classificamos como intelectuais, mas o seu conhecimento não tem relação nenhuma com aquele que lhe criou. É por isso que nós vemos doutores ladrões e governantes ladrões que não saciam a sua ganância”, lamentou.

Uma das defesas mais fortes do Sheikh é a quebra da barreira entre o ensino religioso e o chamado “ensino secular”. Para ele, toda ciência que beneficia a humanidade é, em sua essência, incentivada pelo Isslam. Seja na medicina, na engenharia ou na pilotagem, o muçulmano deve buscar a excelência.

“O Isslam veio para desenvolver o mundo. Se todos nós decidirmos que ninguém vai estudar medicina ou engenharia civil, todos tornamo-nos pecadores. Só focar no ensino religioso e desdenhar as outras ciências está longe dos princípios do Isslam”, avisou.

Ele reforça essa ideia citando a tradição profética de que a sabedoria é um “bem perdido” do crente. “Está com um chinês, nós somos mais dignos de aprender. Está com um americano, nós somos mais dignos de aprender, afirma, sublinhando que o conhecimento não tem fronteiras geográficas ou ideológicas.

Capacitação e manuais nacionais constituem desafios para Moçambique

Ao olhar para a realidade de Moçambique, especialmente nas zonas rurais, o Sheikh identifica lacunas na forma como a educação islâmica é transmitida. Ele aponta a falta de pessoal qualificado e a necessidade de uma padronização didáctica que respeite a realidade local.

O Sheikh lamenta que muitos que se capacitam academicamente acabam abandonando o ensino religioso por considerarem-no de “baixo status”.

Sobre os manuais de ensino, o Sheikh é categórico ao dizer que este deve ser um esforço colectivo. “Não é possível haver manual nacional com uma única pessoa. É um trabalho em conjunto que deve ser feito”, sublinhou.

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista aborda a contribuição do Isslam para a paz social. Em um mundo marcado por tensões religiosas, o Sheikh recorda que o Profeta conviveu pacificamente com outras comunidades e proibiu estritamente a violência contra não-muçulmanos que vivem sob pactos de paz.

“Nenhum crente tem a autonomia ou autoridade de tirar a alma de um descrente. O Isslam nos incentivou sempre a sermos justos, caridosos e solidários. Allah corrigiu a Terra, não podemos nós semear corrupção”, orientou.

O entrevistado explica que o progresso de uma sociedade depende da forma como ela trata os seus membros mais vulneráveis. Ele alerta que a “ajuda de Allah” chega aos capacitados justamente para que estes a façam chegar aos necessitados. Ignorar os pobres, segundo ele, é atrair a calamidade.

Educação das mulheres e dos Jovens são pilares para a estabilidade

A educação das mulheres e a ocupação produtiva dos jovens são pilares para a estabilidade social. O Sheikh destaca que a mulher é o “pilar da casa” e que sua capacitação é essencial para que ela possa atender e orientar outras mulheres na sociedade, seguindo o exemplo das companheiras do Profeta.

Sobre a juventude, ele menciona o curso “Basta de Ignorância’, uma iniciativa que busca educar pessoas de todas as idades, respeitando suas cargas laborais, mas garantindo que o “brilho da fé’ e o conhecimento básico cheguem aos seus corações.

Encerrando sua reflexão, o Sheikh Mubin Hajat faz um apelo à proatividade da comunidade muçulmana e à colaboração com as autoridades governamentais.

“Nós não podemos sentar e dizer que ninguém está a fazer nada. Aquele que disser que as pessoas estão destruídas é a primeira pessoa que está destruída. Temos que trazer soluções e apresentar propostas ao governo”, direccionou.

Para o Sheikh, Moçambique e o mundo só superarão seus problemas sociais quando a educação for vista como um acto de adoração, onde o desenvolvimento técnico caminha de mãos dadas com a integridade moral.