Quando falamos dos grandes problemas que afectam a nossa sociedade, normalmente pensamos no desemprego, na pobreza ou nas dificuldades económicas. No entanto, existe um problema menos visível, mas cujas consequências podem ser igualmente profundas, a preguiça. No Isslam, a gravidade da preguiça é tão significativa que o próprio Profeta (SAW) procurava protecção em Allah contra ela, dizendo: “Ó Allah! Busco refúgio em Ti contra a incapacidade e a preguiça.” Esta súplica profética leva-nos a uma reflexão profunda; se o Profeta (SAW) nos ensinou a procurar protecção contra a preguiça, será que estamos suficientemente conscientes dos seus efeitos sobre a nossa vida e sobre a nossa sociedade? Quando uma pessoa deixa de fazer aquilo que é capaz de fazer, adia constantemente aquilo que deveria realizar e procura sempre o caminho mais fácil, a preguiça deixa de ser apenas um comportamento momentâneo e começa a transformar-se num hábito. E quando esse hábito se multiplica dentro de uma comunidade, pode transformar-se num verdadeiro problema social. Uma sociedade não fica estagnada apenas por falta de recursos. Pode também ficar estagnada quando perde a vontade de utilizar correctamente os recursos, o conhecimento e as capacidades que possui. Por isso, o problema não está apenas naquilo que a preguiça nos impede de fazer hoje. Está também naquilo que, por causa dela, poderemos deixar de ser amanhã. O Isslam chamou a atenção para a gravidade dessa característica. Tanto que o próprio Profeta (SAW) procurava protecção em Allah contra a incapacidade e a preguiça. O Alcorão menciona diversas manifestações de preguiça. Neste contexto, vou deter-me em duas formas particularmente relevantes, que merecem a nossa atenção: Preguiça no cumprimento da adoração Uma das formas mais perigosas de preguiça consiste em a pessoa demonstrar negligência, relutância ou falta de disposição para cumprir os actos de adoração, como a oração, a recordação de Allah, a leitura e a recitação do Alcorão, a busca do conhecimento e as demais formas de obediência e devoção. Trata-se de uma forma de preguiça que não afecta apenas o comportamento exterior do indivíduo, mas pode também enfraquecer a sua relação com Allah e diminuir a sua disposição para praticar o bem. Este tipo de preguiça merece uma atenção especial, pois o próprio Alcorão apresenta a preguiça nos actos de adoração como uma das características dos hipócritas. Allah diz: “E quando se levantam para a oração, levantam-se com preguiça.” [Alcorão, An-Nisa, 4:142] Este versículo revela uma realidade espiritual preocupante: a preguiça diante da adoração pode ser um sinal de enfermidade no coração e um vestígio das características da hipocrisia. O hipócrita não encontra na oração a mesma disposição e motivação que o crente sincero encontra. Ele aproxima-se dela com peso, relutância e desânimo, realizando-a sem verdadeira disposição interior. Preguiça em relação ao trabalho e à adopção dos meios necessários Outra manifestação da preguiça consiste em desejar alcançar determinados resultados sem estar disposto a assumir o esforço e a utilizar os meios necessários para alcançá-los. Há pessoas que desejam o sucesso, mas não estão dispostas a trabalhar para alcançá-lo; desejam conhecimento, mas não querem estudar; desejam prosperidade, mas não querem esforçar-se; desejam mudanças, mas não estão dispostas a tomar as medidas necessárias para produzi-las. Allah, ensinou-nos, através do relato de Maryam, que a adopção dos meios necessários é legítima e faz parte da responsabilidade humana. Allah diz: “E sacode em tua direcção o tronco da tamareira, e ela fará cair sobre ti tâmaras maduras e frescas.”, [Alcorão, Maryam, 19:25] Allah tinha pleno poder para conceder a Maryam o sustento sem que ela precisasse sequer tocar ou sacudir a tamareira. No entanto, determinou que ela recorresse a um meio aparentemente simples, apesar da sua condição e da dificuldade do esforço. Há, uma importante lição neste relato, a confiança em Allah não significa abandonar os meios; significa recorrer aos meios disponíveis enquanto o coração permanece dependente de Allah. Portanto, o que devemos compreender a partir destes dois exemplos é que a reclamação, por si só, não produz resultados. Reclamar não paga as contas, não cria oportunidades, não resolve problemas e não coloca o pão sobre a mesa. É legítimo reconhecer as dificuldades e procurar soluções. Porém, transformar a reclamação num modo de vida, sem disposição para agir, trabalhar e procurar os meios necessários, é uma forma de acomodação. O Isslam não nos ensina a esperar resultados sem esforço. Ensina-nos a agir, recorrer aos meios disponíveis, pedir auxílio a Allah e confiar n’Ele quanto aos resultados. O Profeta (SAW)ensinou: “Esforça-te por aquilo que te beneficia, procura a ajuda de Allah e não te deixes dominar pela incapacidade.” (Sahih Muslim, 2664) Sheikh Muhammad Tacuane A voz da prosperidade