Ontem, 16 de Junho, Moçambique assinalou o 46° aniversário do Metical. Para além de ser um instrumento económico e de um símbolo da nossa soberania pós-independência, a moeda nacional carrega na sua génese uma herança que cruza a história moçambicana e o mundo islâmico.

Há no Metical uma exigência moral de justiça social que o país precisa, urgentemente, de resgatar.

Para muitos cidadãos, muçulmanos ou não, pode ser surpreendente que o nome da nossa moeda encontre eco directo nas páginas do Alcorão Sagrado. O termo deriva da palavra árabe mithqal, que designava a unidade de peso e a moeda de ouro utilizada pelos mercadores muçulmanos na costa moçambicana séculos antes do período colonial. Em 1980, ao romper com o Escudo, o Estado resgatou esta raiz histórica.

No Isslam, o mithqal transcende o dinheiro, ele é o padrão da Justiça Absoluta. Numa entrevista que fiz ao Sheikh Aminuddin Mohammad, há algum tempo, ele explicou que no Alcorão Sagrado encontramos a expressão mithqala dharratin significa “o peso de um átomo” ou de uma “partícula minúscula”, poto que veio a tocar numa das suas palestras.

Com isso, percebemos que mithqal é a unidade de medida da Balança Divina, onde nenhuma acção humana é esquecida. No capítulo 99 do Alcorão, versículo 7 e 8, Allah adverte que “Quem tiver feito o bem, do peso de um átomo, vê-lo-á; e quem tiver feito o mal, do peso de um átomo, vê-lo-á.”

Trazer esta perspectiva teológica para o debate público moçambicano não é um exercício religioso, mas sim um apelo à ética universal. Se a nossa moeda partilha o nome com a “medida alcorânica” da justiça e da prestação de contas, a sua gestão deixa de ser uma questão puramente técnica para se tornar num imperativo moral.

A economia é inseparável da dignidade humana. O princípio islâmico da justiça e equidade exige que os recursos de uma nação sirvam o colectivo. Diante disso, é importante reflectirmos sobre como conciliar o significado do Metical com as fragilidades éticas que ainda persistem na gestão pública e privada.

Sob a óptica islâmica, administrar o erário é zelar por um bem sagrado, exigindo de toda a sociedade uma postura de constante prestação de contas.

É altura de firmarmos um pacto de integridade. A moeda libertou-nos da opressão colonial, mas a sua raiz recorda-nos que a soberania financeira só se justifica quando gera bem-estar para os mais vulneráveis.

Que este aniversário do metical sirva para lembrar que a economia deve ter alma. Que saibamos honrar o nome da nossa moeda, compreendendo que na construção de uma nação justa, cada decisão conta. Até ao peso de um átomo.

Ekibal Seda