Com a recente ocorrência no passado dia 15.06 da Lua Nova do mês de  Muharram, inicia-se o Novo Ano Isslâmico – o ano 1448 da Era de Hidjra.  Saliente-se que os muçulmanos, particularmente os dos países isslâmicos, sempre  se guiaram pelo calendário da Era Hidjra, registando os seus assuntos individuais,  sociais, religiosos, e outros acontecimentos históricos na base do calendário lunar, cuja  contagem começa no período em que o Profeta Muhammad (S.A.W.) obedecendo à  ordem divina deixa a cidade de Makkah, rumo à Madina onde iria dar continuidade à  sua missão de profecia.

Mas com a colonização efectiva de muitos países isslâmicos, os  valores ocidentais sobrepuseram-se à força àquilo que são os valores isslâmicos,  penetrando na mente dos muçulmanos, impondo o seu calendário gregoriano e  eliminando ou marginalizando o nosso calendário.  

Na realidade o conflito entre as culturas ocidental e isslâmica vem já de longa  data, mas após a II Guerra Mundial conheceu um maior agravamento.  Se na vida do Ser Humano a passagem de um dia que não seja positivamente  aproveitado é algo grave, que dizer então da passagem de um ano? 

Hassan Bassri narra que cada dia que nasce, proclama: “Ó filho de Ádam! Eu sou  uma nova criatura, e sou testemunha dos teus actos. Aplica-me nas tuas boas acções  pois depois de eu passar jamais regressarei, até ao Dia da Ressurreição”.  Se a passagem de um dia tem tamanha importância, que dizer então da passagem  de um ano? O tempo que passa jamais volta.  

O esquecimento faz parte do instinto humano, e em parte é o esquecimento que  nos dá mais ânimo de viver, pois se o Homem se lembrasse dos maus momentos que lhe  afligiram na vida, talvez detestasse viver.  

Mas Deus não se esquece, pois perante Ele tudo está registado. Se nas nossas  acções existe algo que possa ser apagado isso só pode ser com o “Tauba”  (arrependimento, pedido de perdão), já que quando o Ser Humano se arrepende com  sinceridade, é como se tivesse acabado de nascer.  

Devemos receber o Novo Ano de uma forma que agrade ao Criador, e que nos  honre como humanos.  

Os ocidentais recebem o Novo Ano Gregoriano de acordo com as suas tradições  pagãs, com decorações luminosas, festas, danças, etc., pois eles adoram o presente,  veneram a Terra e esquecem-se de Deus ao aplicar o seu tempo na desobediência ao  Criador. 

Mas os muçulmanos que valorizam o tempo sabem que este constitui a grande  arma e o maior capital, devendo aproveitá-lo em seu benefício. Os que não o  aproveitam, na verdade incorrem na perdição.  

Deus criou dias e noites que se sucedem, para nos recordar da realidade da nossa  vida.  

Há gente egoísta que só vive para si, para o seu dia-a-dia e para a satisfação das  suas necessidades e paixões corporais, e se se estender um pouco mais, então é apenas  para a sua família, não pensando para além disso, pois a sua prioridade reside nos  interesses pessoais acima dos interesses colectivos e da religião.  

Mas ainda há quem viva para o seu Senhor, para o amanhã, para a purificação do  seu espírito e para a Vida do Além.  

Os muçulmanos em Makkah viviam para a sua religião e para o seu Deus, por  isso quando lhes foi ordenado que abandonassem a sua terra natal migrando para  Madinah apenas para servirem o Isslam e não para qualquer outro motivo pessoal ou  negócio, imediatamente se prontificaram estabelecendo nesta cidade o primeiro governo  isslâmico na face da Terra.  

Deus concede diariamente este tipo de opções aos povos e aos indivíduos, em  particular aos muçulmanos.  

Quando a migração foi ordenada o Profeta tinha 53 anos, isto após a sua coroação  com a profecia aos 40 anos, altura em que começou a convidar as pessoas para o  caminho da verdade e da rectidão, combatendo a idolatria e os males sociais.  

Os versículos do Qur´án revelados em Makkah, consolavam-no  permanentemente, pois sabia que a vitória lhe pertencia. Contudo, após treze anos viu se forçado a migrar para Madinah de forma furtiva, à noite, tendo como companheiro  Abubakr, com os inimigos perseguindo-o e anunciando prémios para quem o trouxesse  vivo ou morto.  

Qual foi o fim desse “djihad” (sacrifício por uma causa nobre) após treze anos?  Mas a corda do “djihad” é longa e as suas argolas estão interligadas, pois as coisas não  dependem dos nossos planos, mas sim dos planos divinos.  

É nossa obrigação planearmos e pensarmos nos meios de melhorar o nosso  desempenho na Terra, não ficando sujeito à surpresas.  

E é esta a lição que tiramos da passagem de Hidjra, pois o Profeta (S.A.W.)   planeou, procurou transporte e um guia, e durante os períodos em que tinha que se  esconder dos que o queriam matar, tinha pessoas incumbidas de lhe dar informações e  levar-lhe alimentos. Portanto, não pode haver desenvolvimento material ou espiritual  sem procurarmos os meios lícitos, pois não se abandonam os meios, apenas depositando  confiança em Deus.  

Os muçulmanos devem acordar do seu sono profundo e começar o seu Novo Ano  da melhor forma.  

A todos os muçulmanos, desejos de um Feliz Ano Novo de 1448. 

Por: Sheikh Aminuddin Mohamad