A mawaddah é uma afeição que se desenvolve e se fortalece ao longo da vida conjugal, tornando-se concreta por meio do cuidado, do respeito, da proximidade e da busca sincera pelo bem do outro, inclusive quando a relação atravessa momentos de dificuldade. Não se trata de um sentimento passageiro nem de uma simples atracção condicionada pelas circunstâncias, mas de um amor que se manifesta em atitudes concretas, através do cuidado, da consideração e do desejo genuíno de promover o bem-estar do outro. No conceito alcorânico, o casamento não consiste simplesmente em encontrar alguém para não estar sozinho, mas em encontrar alguém com quem se possa construir uma vida marcada pela tranquilidade e misericórdia. Allah diz: “E, entre os Seus sinais, está o facto de Ele ter criado para vós, da vossa própria espécie, cônjuges, para que encontreis tranquilidade junto deles, e colocou entre vós afeição e misericórdia.” (Alcorão, 30:21) Este versículo apresenta uma visão profunda da vida conjugal. O casamento é um espaço no qual os cônjuges encontram tranquilidade e cultivam misericórdia. Já ouviram dizer o ditado: “melhor só do que mal acompanhada”? Confesso que, durante muito tempo, nunca tinha compreendido plenamente a mensagem contida neste conhecido ditado que muitas mulheres partilham. Essa expressão pode parecer simplesmente uma frase popular. Mas, quando a relacionamos com o conceito alcorânico de sakan , ela ganha uma dimensão diferente. A sakinah não é um detalhe secundário do casamento ela faz parte da própria finalidade que Allah apresenta para a vida conjugal. Portanto, o casamento, no conceito alcorânico, não existe simplesmente para eliminar a solidão, mas para proporcionar uma relação na qual haja tranquilidade e misericórdia. Assim, quando uma relação deixa de oferecer esses elementos e passa a ser dominada por violência, desrespeito, humilhação, manipulação ou sofrimento contínuo, a simples presença de um companheiro deixa de ser uma vantagem. O casamento não deve ser apenas o lugar onde duas pessoas vivem juntas; deve ser o lugar onde duas pessoas ajudam uma à outra a viver com dignidade. “Mal acompanhada”, significa estar numa relação cuja dinâmica é persistentemente prejudicial e incompatível com a dignidade e o propósito saudável da vida conjugal. Talvez o verdadeiro sentido deste ditado “melhor só do que mal acompanhada” seja este: a solidão pode ser dolorosa, mas viver permanentemente ao lado de alguém que destrói a tua tranquilidade e paz interior pode ser ainda mais doloroso. Foi a partir da reflexão sobre alguns versículos do Alcorão que comecei a compreender a profundidade dessa expressão. Por isso, amor sozinho não é suficiente para caracterizar um bom casamento. Allah não fez do amor romântico o único fundamento da vida conjugal; estabeleceu princípios como a justiça, o respeito e a responsabilidade, dos quais podem nascer e fortalecer-se a afeição e a misericórdia. O amor pode oscilar, mas a justiça obriga o ser humano a cumprir os direitos do outro mesmo quando a intensidade do sentimento diminui. Uma pessoa pode estar acompanhada e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinha. Uma relação não deve transformar o outro em objecto de humilhação, exploração ou sofrimento. Aqui está o “grande segredo” O Profeta (saw) diz: “Quando vos procurar alguém cujo din e carácter vos agradam, então casai-o. Se não o fizerdes, haverá uma grande provação na Terra e uma grande corrupção.” (Tirmidhi) O din representa a relação da pessoa com Allah, os seus princípios, consciência religiosa e responsabilidade perante Ele. Estar mal acompanhado significa ter alguém ao seu lado que, em vez de contribuir para a tranquilidade, transforma a própria convivência numa fonte permanente de sofrimento. Uma relação marcada por humilhação, controlo, desprezo ou insegurança pode produzir mais sofrimento do que a própria solidão. Sheikh Muhammad Tacuane A voz da prosperidade