Espaço Islâmico (EI): Sheikh, no contexto islâmico, a quem o muçulmano deve seguir ou ter como a principal referência de conduta e fé?
Sheikh Zainadine Dauto (ZD):O mais digno de ser seguido é aquele que se comprova o seu conhecimento como fidedigno, aquele que é baseado a partir das informações credíveis e certas. Isso pode ser consubstanciado quando o Profeta Muhammad (SAW) falava da questão de liderança, do imamo, podemos usar isto como exemplo, ele disse o mais sábio dentre vós nas matérias do Qur’án e da Sunnah, isto é nas leis de Allah, depois vem aquele que mais aplica a Sunnah, depois o mais velho dentre vós porque é aquele que tem mais experiência nesses assuntos. Nessas três categorias, sempre também entra a justiça, o mais justo.
EI: Qual o papel do Profeta Muhammad (SAW) como exemplo máximo para a comunidade muçulmana?
ZD: Como ele disse, que não fui enviado, senão a misericórdia para o mundo. Mas o grande papel que ele trouxe para nós eu resumiria com aquilo que era comum que os suahabas dissessem quando referenciassem a figura do profeta. Eles diziam, Tu estás na categoria de pai e mãe ou mensageiro de Allah. Então, o papel fundamental do profeta, além de nos ligar ao Criador, também, o seu papel importante é de nos desenhar em como sermos aqui na Terra.
EI: Em um mundo com tantas vozes e interpretações, como um muçulmano comum pode discernir e escolher as referências islâmicas autênticas e confiáveis?
ZD: Todo mundo hoje quer falar sobre alguma coisa. Todos querem comentar e poucos querem compreender. Por que é isso? Qualquer um acha que está na capacidade de falar. Mas, para identificar quem está capacitado para buscar o conhecimento temos que estudar a pessoa, saber quem é, a sua ideologia, o ponto a contribuir, a missão e os valores da mesma. Se isso estiver alinhado, ter a base fundamental para poder seguir, baseando-se nos ensinamentos do Qur’án e da Sunnah, não há problema algum.
EI: Qual a relevância prática e a importância de nos apegarmos às referências e valores islâmicos tradicionais (o Alcorão e a Sunnah) para enfrentar os desafios do século XXI?
ZD: Existem várias formas de obter conhecimento, através dos órgãos sensoriais, da experiência, etc. mas estas formas de aquisição de conhecimento são incompletas. A profecia e a revelação são consideradas o nível da excelência do conhecimento por não trazer dúvidas. O facto de nós não seguirmos estas referências, o Qur’án e Sunna, podemos estar a contribuir aos problemas que nós temos hoje, pois estes dois elementos conduzem-nos para excelência.
EI: Muitos argumentam que as referências islâmicas são antiquadas para resolver problemas modernos. Como o Isslam, através das suas fontes, oferece soluções para questões contemporâneas como tecnologia, finanças globais e direitos humanos?
ZD: A negligência do próprio Qur’án significa o desequilíbrio da nossa convivência social. O Qur’án e a Sunnah são referências antigas. Depois de 1400 anos, estas referências continuam, podemos dizer, actuais. Porque ele sempre relatou nos assuntos primeiros, assuntos médios e assuntos do fim do tempo. Então, por isso que o próprio Qur’án disse Allah criou aquilo que vocês desconhecem. Nós como muçulmanos, a partir do Qur’án e da Sunnah conseguimos ter orientação para qualquer época.
EI: De que forma o não seguimento ou o desvio dessas referências tem contribuído para a confusão, a desunião e, por vezes, os extremismos dentro da própria Ummah?
ZD: Como o Profeta (SAW) disse, deixei duas coisas que se apegarem seriamente, não vão se desviar, que é o Qur’án e a Sunnah. O não seguimento disso traz impactos, o primeiro é o desvio em toda esfera, desde os princípios a moral. Isso contribui para a falta de paz, nós não temos a paz, porque nós não aplicamos isto, não temos esta misericórdia. Alguns sábios chegam a dizer que o Qur’án tem cerca de 18 mil leis para se praticar e a maioria das leis são sobre a forma de ser e estar entre a sociedade, a negligência do próprio Qur’án significa também o desequilíbrio da nossa convivência social. Aliás, como diz o Qur’án, a maioria dos males que assolam vocês mesmo é o resultado de vocês mesmo.
EI: A nível global, assistimos a crescentes problemas sociais como a desigualdade, a corrupção, a desestruturação familiar e a falta de ética. Como o seguimento rigoroso das referências islâmicas pode ser uma ferramenta eficaz para o fim ou a mitigação destes problemas?
ZD: O que temos que fazer? Temos de saber que cada um de nós é um propagador da religião, por isso tem de agregar algum valor. Cada um de nós tem de cumprir aquilo que o profeta disse, faça chegar de mim mesmo que seja um versículo, pode ser versículo de Qur’án, de hadith mas também pode ser versículo da boa conduta, quer dizer, a tua conduta já é um versículo que está a ser praticado. Então o que falta é nós, é a prática. Nas sextas-feiras são lançados inúmeros sermões mas nós não praticamos.
EI: O que precisa ser feito para inverter está situação?
ZD: Eu sugiro que nós que propagamos identificássemos o problema e procurássemos resolver, nos dividirmos em áreas e em função da especialização para falarmos com excelência sobre esses assuntos, talvez com excelência a comunidade consiga acatar. E por parte dos outros também, eu diria ter a ideia de que eu vou buscar a lição para poder mudar. Há uma diferença entre nós e os povos passados, há quem diga que eles tinham falta de conhecimento, mas o pouco que aprendiam eles praticavam e hoje temos abertura de conhecimento, mas há pouca prática. Sugerir ressuscitar os métodos do profeta Muhammad (SAW) na divulgação, assim como na prática. Ressuscitar significa fazermos da mesma pois elas plicam-se hoje. Vamos dividir as tarefas, os discursos, dividir as responsabilidades e os espaços para poder tratar certas acções, certas problemáticas. E, no fim de tudo, incluir a todos.
EI: Qual o papel das instituições islâmicas (mesquitas, centros comunitários) e dos líderes religiosos como o senhor, na promoção desses valores e na orientação da comunidade para a acção social positiva?
ZD: O papel das instituições islâmicas, é de resgatar os valores do Qur’án e da Sunnah. E acima de tudo proporcionar o bem-estar social. Para todos, principalmente aqueles que não têm uma capacidade e aqueles que são frágeis. E essa seria a primeira responsabilidade das instituições islâmicas, olhar para aquele que é frágil. Elas também devem defender a imagem do Isslam. Existem instituições que já não lembram que a função da instituição islâmica é defender o próprio Isslam, é defender os valores morais, é velar sobre aqueles que não têm força, não têm nenhum poder.
EI: Para concluir, que mensagem principal gostaria de deixar aos muçulmanos sobre a responsabilidade individual e colectiva de reflectir, através da sua conduta, os mais altos valores e referências do Isslam, em prol de um mundo melhor?
ZD: Como apelo dizer que se precisa representar uma instituição religiosa, precisa se encontrar. Precisa saber quem é, porque tornar-se líder significa que esta munida de conhecimento suficiente e de responsabilidade suficiente de saber que, se você errar, está errar por ti e está errar pelo ummati. O erro desta pessoa é responsabilizado para todos e vão dizer que o Isslam é assim, enquanto não é a religião ma sim a pessoa. E tornar-se líder significa representar o Isslam em todas as férias, e hoje, principalmente em Moçambique, líderes são convocados em fóruns governamentais para discutir alguns pontos do Isslam, não faz sentido como líder ir lá vazio. Finalizar dizendo que muitos de nós querem comentar e não querem compreender. Muitos de nós querem liderar, mas não querem formar-se.

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