Hoje, o reitor da mesquita, Chems-eddine Hafiz, vê o local como um símbolo do diálogo inter-religioso e da diversidade, mas não esconde a preocupação com as crescentes tensões religiosas no país, alimentadas por conflitos no Oriente Médio e pela polarização política.
Diante desse cenário, Hafiz aponta a necessidade de acolhimento. “É responsabilidade de todos ver os muçulmanos como parte da comunidade nacional”, destacou.
Inaugurada em 15 de julho de 1926 pelo então presidente francês Gaston Doumergue e por Moulay Youssef, sultão de Marrocos, a mesquita é considerada uma jóia da arquitectura hispano-mourisca, inspirada no palácio de Alhambra, em Granada.
Com um minarete de 33 metros de altura que avista o Rio Sena, o complexo abriga uma sala de orações ornamentada, jardins andaluzes, um popular salão de chá e banhos turcos, atraindo fiéis e uma multidão de turistas.
Relembrando o acto da fundação, o reitor Chems-eddine Hafiz destaca o peso histórico da iniciativa republicana da época. “Quando foi construído, o presidente francês Gaston Doumergue fez uma declaração lembrando-nos que a diversidade da França só poderia fortalecer sua comunidade nacional”, recordou.
Para Hafiz, embora a essência institucional permaneça viva, o ambiente social deteriorou-se. “Acredito que a vontade política e a mensagem política permaneceram inalteradas desde 1926. O problema reside nas atitudes das pessoas. Hoje, actos anti-muçulmanos ainda são cometidos contra muçulmanos”, lamentou.
Papel da mesquita na ocupação nazi e a realidade actual dos fiéis
Por trás da sua beleza arquitectónica, a história da mesquita revela-se complexa e ambivalente, um aspecto detalhado pelo renomado historiador francês Benjamin Stora na obra comemorativa lançada para o centenário.
Stora explica que, no período entre guerras, as autoridades francesas utilizaram a instituição para monitorizar a crescente população de trabalhadores argelinos e contra-atacar a ascensão do nacionalismo anticolonial.
Contudo, durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, o templo transformou-se num santuário secreto. A partir de 1942, sob a liderança do reitor Si Kaddour Benghabrit, a mesquita emitiu documentos de identidade muçulmanos falsos para salvar judeus da perseguição nazi.
“Existem provas irrefutáveis, como relatos de testemunhas oculares, e eu mesmo colectei depoimentos em 2010. Judeus e muçulmanos viveram juntos por 1.500 anos. Não era o inferno, nem o paraíso, mas coexistiram. É importante tentar preservar os lugares que servem de ponte entre as comunidades religiosas”, sublinhou.
Actualmente, o Isslam é a segunda maior religião na França, país que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa Ocidental. Apesar disso, os fiéis enfrentam episódios recorrentes de discriminação e hostilidade, agravados na última década após atentados extremistas e impulsionados pela ascensão da extrema-direita na actual campanha presidencial.
Frequentadores da mesquita expressam o desejo por mais respeito e liberdade no quotidiano francês, como relata a voluntária Fátima Chouchane, que lamenta as restrições impostas às mulheres que usam o véu islâmico em escolas e postos de trabalho.
“Peço à França que deixe essas pessoas em paz e as permita fazer suas escolhas religiosas (…) É um símbolo, é o museu parisiense para os muçulmanos. Todos devemos ser solidários”., disse Fátima resumindo o sentimento de orgulho e união que o centenário representa para a comunidade local.

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