O vazio deixado pela falta de sustento

O Sheikh Abdallah Omar traça um panorama preocupante sobre o estado da Da’wah na província, especialmente após a paralisação do projecto de apoio do Instituo Hamza, denominado “volta à casa”, que fornecia um pequeno subsídio a teólogos.

“Este projecto ficou paralisado em 2024. Então, grande parte dos Álimos que tinham este pequeno subsídio, que também era um grande suporte, acabaram ficando praticamente desamparados”, contou.

Confrontados com a necessidade de sustentar as suas famílias, muitos Álimos vêem-se forçados a procurar alternativas, sendo a agricultura a mais acessível. O problema agrava-se pela distância entre as áreas de residência e as terras de cultivo.

“Muitos deles encontram a agricultura como alternativa para conciliar entre fazer Da’wah e procurar sustento. Embora alguns possam ir à procura do sustento… acabam mudando de residência para as machambas. E nas machambas fica quase um período longo, dois, três meses… Então, aqui, o Da’wah também fica um pouco estagnado”, contou.

Ao ser questionado se este “desvio” para a agricultura é uma necessidade de sobrevivência ou uma falha da comunidade, o Sheikh é categórico.

“Eu considero como uma falha. Porque esta questão nós começamos a observar agora, principalmente quando pararam os subsídios para alguns maulanas que tinham uma fonte de renda no final do mês… A comunidade tem que fazer algo de modo a assegurar a presença desses Álimos a tempo inteiro para dedicar todo o seu esforço no trabalho de Da’wah”,explicou.

A urgência de instituições e o crescimento da consciência juvenil

Apesar dos desafios financeiros, o Sheikh Abdallah Omar destaca que as dificuldades do Niassa são estruturais, remontando à escassez histórica de instituições de ensino religioso. O acesso ao conhecimento sempre foi limitado, com as gerações anteriores dependendo da vizinha Tanzânia ou Quénia.

“Maior número de muçulmanos, mas com muita limitação em termos de acesso ao ensino religioso. Até neste momento, nós não temos uma única instituição que tem o sistema de internato”, lamentou.

Os poucos Álimos actuais são graduados recentes de instituições em Maputo (como o Instituto Hamza), Madina, Egipto, Sudão e África do Sul, e a responsabilidade da Da’wah recai sobre eles num contexto de pouca infra-estrutura local.

No entanto, o Sheikh Abdallah Omar faz questão de realçar as conquistas que dão esperança à comunidade, o crescimento da consciência entre os jovens e o aumento da adesão às madrassas.

“Temos muita aderência de estudantes nas madrassas. Isso mesmo a partir da cidade de Lichinga, quase em todos os distritos”, realçou.

Este movimento crescente tem resultados visíveis, nomeadamente na adopção do vestuário islâmico feminino em áreas rurais.

“Era novidade ver uma mulher muçulmana a andar de hijab, nas zonas rurais, onde o hijab era algo estranho. Mas hoje em dia é comum sair fora da cidade, ir lá nas comunidades encontrar muita gente, muitas mulheres com hijab”, revelou.

O aumento de alunos, contudo, gera um novo problema, a falta de material didáctico. A escassez de livros obriga os professores a voltarem ao sistema antigo de copiar o conteúdo para o quadro, comprometendo a capacidade dos estudantes de fazer a revisão em casa.

“Com o crescente número de alunos das madrassas, o material didáctico não é suficiente. Então o professor é obrigado a voltar ao sistema antigo… O aluno praticamente tem oportunidade de aprender quando está na madrassa. Quando chega em casa, já não tem livro, então não há como fazer revisão”, apontou.

O impacto é sentido nas comunidades onde adquirir um único livro, ou mesmo fazer uma cópia, é financeiramente inviável.

“Estamos a falar de comunidades, onde uma família conseguir 200 meticais é algo muito difícil. Mas vontade de estudar, aprender, ainda existe”, revelou.

O apelo à auto-suficiência comunitária e a renovação da intenção

Para o Sheikh Abdallah Omar, a solução para a instabilidade dos teólogos e a crise de materiais didácticos não pode depender apenas de ajuda externa. O foco deve ser na educação e mobilização da comunidade muçulmana local.

“Nós não podemos esperar que este apoio venha de longe. Porque temos que educar as nossas comunidades a investirem no din (religião), é algo que temos que apostar a todos e abraçar”, orientou.

O Sheikh lamenta a falta de constância nos apoios que surgem de pequenos comerciantes locais e reitera que a iniciativa de sustentabilidade deve partir de dentro da própria comunidade.

“Deixar de esperar que pessoas do outro mundo cheguem aqui para resolver os nossos problemas com os nossos pregadores. Então a iniciativa deve ser nossa. Aqueles que saem de longe devem vir complementar o nosso esforço.”

Recordando o passado, onde a agricultura servia como sustento colectivo, o Sheikh reconhece que as estratégias actuais devem evoluir com os tempos.

“O tempo mudou e as estratégias também deveriam ser melhoradas. Tem que acompanhar com o tempo… para que não vá prejudicar o nosso din”, justificou.

Na conclusão da entrevista, o Sheikh Abdallah Omar deixou uma mensagem de encorajamento aos seus colegas pregadores e um forte apelo à comunidade. Aos teólogos, a prioridade deve ser a pureza da intenção.

“Em primeiro lugar, é renovarmos as nossas intenções e não esperar o ganho deste dunia (mundo)… se tivermos uma intenção muito forte e firme, o nosso empenho for mais determinante, sempre as portas vão se abrir”, vaticinou.

À comunidade, o apelo é para que encarem o apoio à Da’wah e a aquisição de materiais religiosos como um investimento, e não como uma despesa.

“Temos que aprender de que tirar pela causa de Allāh, comprar livro para o nosso filho na madrasah é um investimento. Não estamos a perder… Significa que ainda temos que trabalhar com a mente da nossa comunidade, tem que gastar para o din e também investir para o nosso futuro”, apelou.