Nascido na Beira, em Moçambique, Sheikh Munir recorda com naturalidade o seu crescimento numa “cidade portuguesa’, tendo saído da ex-colónia em 1974 com passaporte nacional. O seu percurso levou-o ao Paquistão e à Índia, onde se dedicou profundamente à teologia, chegando a memorizar todo o Alcorão em apenas dois anos e meio, um feito que descreve como uma vocação que não o impediu de manter os pés na terra.

“Eu queria ser piloto de aviação civil”, confessa, sublinhando que o Isslam não é uma missão castradora da vida civil.

A integração é o tema central da sua mensagem. O sheikh defende que a comunidade islâmica histórica em Portugal, vinda de Moçambique e da Guiné após o 25 de Abril, nunca teve dificuldades de adaptação porque via Portugal como o seu lar.

“Porque é que os muçulmanos vieram para Portugal? Porque era muito mais fácil a integração. Porque era a casa. Era a casa”, afirma com convicção.

Para o Sheikh, a identidade nacional e a fé são indissociáveis. “A nossa cultura é portuguesa, a nossa matriz é portuguesa, a nossa língua é portuguesa. A única diferença é a nossa crença, mas a nossa Constituição dá liberdade a cada um de nós praticar a crença que a pessoa tem”, contou.

Contudo, Sheikh David Munir não foge aos temas sensíveis e demonstra preocupação com as novas vagas migratórias que não partilham esta matriz histórica. Alerta para o perigo de se criarem “guetos” e para a recusa de alguns em aprender a língua ou integrar-se na cultura local.

“Se você não está satisfeito de viver em Portugal, pela liberdade que tem… faça-nos o favor, imigre”, declara, numa mensagem directa aos que exibem posturas radicais, reforçando que a democracia e a liberdade de expressão exigem respeito mútuo, lembrando que a sua própria crença o obriga a respeitar a crença do outro.

Sobre o papel da mulher, Sheikh Munir rejeita a ideia de subserviência como um preceito religioso, atribuindo-a a questões culturais ou familiares específicas.

“O Isslam considera a mulher igual ao homem. Como seres humanos, nós somos iguais”, esclarece, citando o Profeta Muhammad (SAW) ao dizer que “o paraíso está por baixo dos pés das mães”.

No plano internacional, lamenta profundamente o conflito no Médio Oriente, classificando o que se passa como um “genocídio” e defendendo que o problema não é religioso, uma vez que o muçulmano não tem conflitos inerentes com cristãos ou judeus.

Ao fim de 38 anos à frente da Mesquita Central de Lisboa, Sheikh David Munir mantém-se como um homem comum que gosta de andar de bicicleta e que recusa pedestais. Assume a responsabilidade pesada de transmitir paz e tranquilidade, servindo de ponte entre as várias correntes do Isslam e a sociedade civil.

Para ele, a solução para o futuro reside no conhecimento. “É muito importante haver aproximação entre muçulmanos, judeus e cristãos para conhecermos melhor e respeitarmos. Quanto mais eu conhecer, mais irei respeitar”, concluiu. (Espaço Islâmico/rtpensina)