Teólogos moçambicanos lideram expansão do Isslam e diálogo inter-religioso no Brasil
Os teólogos moçambicanos Sheikh Aboo Abudo Atibo e Sheikh Abdul Ghany Abubakr lideram um movimento de expansão do Isslam no Brasil, utilizando a língua portuguesa e a afinidade cultural para consolidar a religião na Lusofonia. Com anos de actuação naquele país, os líderes religiosos focam-se na criação de madrassas, na auditoria halál e no diálogo inter-religioso para desmistificar preconceitos e superar o divisionismo interno nas comunidades muçulmanas.
Sheikh Aboo Abudo Atibo: O teólogo moçambicano que há 15 anos promove o Isslam e o diálogo inter-religioso no cenário brasileiro
Há cerca de 15 anos, o teólogo e líder religioso muçulmano moçambicano Sheikh Aboo Abudo Atibo, desembarcava no Brasil. Desde então, ele tem desempenhado um papel crucial no crescimento e na divulgação do Isslam no país, trabalhando na teologia, liderança comunitária e, mais recentemente, no diálogo inter-religioso. Em entrevista, ao Espaço Islâmico, o Sheikh compartilhou a sua trajectória e os desafios da sua missão no Brasil.
Relativamente a sua inserção no Brasil, no que diz respeito ao seu trabalho religioso (Din), ele descreveu como "bem simples e natural”. Ao chegar em 2010, ele encontrou um ambiente muçulmano já estruturado para o Dawah (propagação da religião) e para o ensino religioso (Madrassa). “O campo já estava meio que preparado”, afirmou.
Em relação ao ambiente não muçulmano, o Sheikh notou semelhanças culturais com Moçambique, o que facilitou a adaptação. No entanto, ele destacou um grande desafio para a comunidade muçulmana no Brasil, no caso a alimentação halál. A presença de derivados de porco em muitos produtos dificulta a observância das regras alimentares islâmicas. "Na questão da alimentação, nós acabamos sofrendo um pouco mais”, relatou.
Nos últimos tempos, o Sheikh Aboo Abudo Atibo tem se destacado pela participação em eventos inter-religiosos e em ambientes não muçulmanos para disseminar a mensagem do Isslam. Ele atribui essa evolução à sua postura de ser “leve, afável” e à convivência natural com o povo brasileiro. O domínio da língua portuguesa também se mostrou um factor-chave.
Ele reconhece, no entanto, que este trabalho é um grande desafio. “Não é nada fácil entrar nesses ambientes inter-religiosos”, disse, enfatizando a necessidade de saber transmitir a mensagem islâmica sem ser agressivo e, ao mesmo tempo, desmistificar preconceitos.
Sobre a associação do Isslam ao terrorismo em países ocidentais, o Sheikh afirma que, pessoalmente, não sofreu ataques ou discriminação séria. Ele acredita que nos círculos inter-religiosos, as pessoas são mais maduras e informadas.
Crescimento do Isslam no Brasil, um chamado à missão para Álimos moçambicanos
O Sheikh Atibo testemunha um crescimento significativo da religião islâmica no Brasil ao longo dos seus 15 anos. Ele observa que o número de locais de culto e de escolas religiosas cresceu, indicando um ambiente em “franco crescimento” e “muito bonito”.
Olhando para a presença da religião islâmica no Brasil nos próximos 5 a 10 anos, a tendência é de avanço, impulsionada pelo trabalho de Dawah. O Sheikh mencionou a diversidade da comunidade muçulmana no Brasil, com mesquitas frequentadas por diferentes nacionalidades o que enriquece a percepção e a prática religiosa.
Moçambique é considerado uma referência na promoção do Islã em países de língua portuguesa. O Sheikh Aboo Abudo Atibo encorajou os jovens Álimos moçambicanos a abraçarem a missão de Dawah na Lusofonia. No entanto, ele alertou que o Brasil “não é campo para todos, exigindo preparo e resiliência.
Ele sublinhou que o trabalho do líder religioso no Brasil pode ser solitário, com o Imamo por vezes realizando as orações sozinho. A chave para o sucesso, segundo o Sheikh, é o esforço pessoal e a perseverança.
“Nada mais me ajudou a chegar onde eu cheguei, a não ser a forma como o trabalho de Dawa-i Tabligh me ensinou a ser. Essa pessoa que vai atrás, que faz, que procura, que bate na porta das pessoas”, disse ele, referindo-se à sua abordagem em buscar e educar novos alunos.
O seu trabalho actual inclui a liderança da sua própria Madraça, a auditoria Halál e a tradução simultânea na mesquita, demonstrando a diversidade de papéis que um líder religioso precisa assumir para sustentar a comunidade.
Sheikh Abdul Ghany Abubakr revela desafios e oportunidades do Isslam no Brasil
O Sheikh Abdul Ghany Abubakr, que migrou para o Brasil para actuar na Auditoria halál, está a desbravar um caminho único na propagação da mensagem do Isslam (da′wah) em terras brasileiras. Longe do formato tradicional dos masjids, o Sheikh Abubak integra o seu trabalho de dawah no seu dia-a-dia e nas suas viagem.
Com apenas seis de experiência no país, o Sheikh oferece uma perspectiva inicial, mas perspicaz, sobre o panorama islâmico e a receptividade dos brasileiros.
Apesar do pouco tempo, a experiência do Sheikh Abubak tem sido “muito positiva”. Ele destaca que o povo brasileiro é acolhedor e curioso, embora muitos não conheçam o Isslam ou tenham uma visão distorcida, moldada pela narrativa negativa da mídia.
“A maioria das perguntas que eles fazem são perguntas que eles ouviram erradas na internet sobre o Isslam ou na mídia. Então, nós desmistificamos aquelas perguntas e respondemos com clareza para fazê-los entenderem a religião islâmica”, contou.
O Sheikh explica que a mídia, tanto na América do Sul quanto na do Norte, tem associado o Isslam ao terrorismo ou o limitado à cultura árabe. Como muçulmano africano, ele usa o seu exemplo para clarificar que o Islão não tem limites de raça, cultura ou etnia, e que é uma religião universal.
Através de conversas nas suas viagens, ele tem abordado a história do Isslam em Moçambique e respondido a questões sinceras, como a possibilidade de abraçar o Islão em qualquer idade. Para ele, a chave é o bom comportamento e a transmissão da mensagem com hikmah (sabedoria) e paciência.
Apesar do acolhimento, o Sheikh aponta duas grandes dificuldades no dawah. A questão da narrativa da mídia e o divisionismo dos muçulmanos.
“É preciso mais do que palavras para convencer os brasileiros de que a visão que têm do Isslam, frequentemente associada a estereótipos (como a imagem de um Sheikh árabe e rico), está errada”, explicou. O Sheikh salienta a importância de exemplos vivos e de mostrar a realidade dos muçulmanos brasileiros para que a mensagem seja digerida.
Mídia, divisionismo interno e as recomendações para os muçulmanos
Em relação ao divisionismo ele considera um "problema grande" que enfraquece a apresentação do Isslam como uma religião coesa e unida. O Sheikh nota que muitas mesquitas são segregadas por nacionalidade.
“Esse divisionismo entre muçulmanos é um problema grande, que eu acho que enfraquece a apresentação do Isslam aqui como uma religião coesa, bela e unida aqui no Brasil. Porque o novo muçulmano, que está interessado no Isslam, muitas vezes se vê perdido no meio dessas divisões", acrescentou.
Um outro obstáculo é a barreira da língua. Muitas palestras de sexta-feira são feitas em árabe, sendo depois traduzidas, o que pode diluir a mensagem e reforçar a confusão entre o Isslam e a cultura árabe.
Para aqueles que pensam em dedicar-se ao dawah no Brasil, o Sheikh Abdul Ghany Abubakr deixa conselhos práticos.
“Estudar o Isslam na sua base e ter muita paciência. Lembrar sempre que o dawah é mais do que palavra, é comportamento, ética e bom exemplo. O Brasil é um país grande e com muitos desafios, mas mesmo pequenas acções podem tocar corações de pessoas”, referiu.
O Sheikh ainda destaca que muitos brasileiros aceitam o Islão por investigação própria através da internet, documentários e curiosidade, o que demonstra a sede de conhecimento do povo.
Para acolher esses novos muçulmanos, o Sheikh considera essencial criar um sistema de capacitação ou curso básico para que possam aprender o mínimo da religião e praticá-la.
“No Isslam, se você fica muçulmano, tem que aprender, tem que conhecer a sua religião e tem que praticar.”
O Sheikh finaliza, expressando a sua esperança de que, com sinceridade e intenção correta, Allah abrirá os caminhos para a expansão da mensagem, e que todos sejam usados como ferramentas para a verdade.
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