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“A independência trouxe ganhos reais para os muçulmanos”, analisa Sheikh Aminuddin Mohammad

“A independência trouxe ganhos reais para os muçulmanos”, analisa Sheikh Aminuddin Mohammad
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Redação Autor
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História

Moçambique assinalou na quarta-feira, dia 25 de Junho de 2025, 50 anos de independência do domínio colonial português. Neste período ocorreram vários episódios nos mais variados sectores, é neste sentido que o Espaço Islâmico conversou com o Sheikh Aminuddin Mohammad, presidente do Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO) e uma das vozes islâmicas mais sonantes no país e na lusofonia para avaliarmos como a religião islâmica e os muçulmanos se portaram durante o meio século.

O Isslam em Moçambique tem raízes históricas profundas, remontando séculos antes da independência. A presença muçulmana na região é resultado da interacção comercial com comerciantes árabes e da influência das rotas comerciais do Oceano Índico, especialmente através da costa suaíli.

O Sheikh inicia a conversa enaltecendo a independência do país e sublinha que para falar sobre a religião islâmica nesses 50 anos primeiramente é preciso lembrar como os muçulmanos viviam em Moçambique antes dessa conquista.

Aliás o teólogo e escritor diz que a história conta que a religião islâmica já havia chegado em Moçambique antes mesmo da vinda dos portugueses.

O Isslam chegou aqui, muito antes da chegada do colonialismo, isso é um facto. E a grande prova disso são os nomes do próprio país, o dinheiro que a gente tem, o Metical. Metical é o nome de um peso árabe. Está presente também no Alcorão“, disse o sheikh.

O sheikh lamenta a falta de arquivo histórico que conta como era o Isslam em Moçambique antes da chegada dos portugueses. Segundo ele a história foi perdida devido a perseguição que houve dos portugueses, eles fizeram esforços para suplantar a religião islâmica.

“Quando chegaram na Ilha de Moçambique a primeira coisa que eles fizeram, estabeleceram uma cruz. Onde chegavam, eles pensavam que a cruz vai substituir o Isslam. Não temos história de Isslam em Moçambique, porque também fazia parte, obliterar e apagar toda a influência islâmica em tudo ”, lamenta o sheikh argumentando que até certo ponto conseguiram cortar o relacionamento de Moçambique com o mundo islâmico.

Para o Sheikh não faz sentido que não exista um Alcorão em uma das línguas locais moçambicanas, contudo ele entende a situação pois conta que em Moçambique no tempo colonial, havia zonas em que era proibida a entrada do Sagrado Livro em árabe.

Nós tínhamos aqui os nossos colegas da África do Sul, eles dizem que no tempo colonial, quando vínhamos aqui, as pessoas choravam porque queriam ver o Alcorão em árabe. Há 60 anos atrás Isslam aqui em Moçambique, no tempo colonial, era Maulid e Ziyarat”, contou.

Para o Sheikh o colono tinha interesse em manter algumas práticas superficiais e deturpadas para distanciar o muçulmano da verdadeira crença, de tal maneira que a juventude não conseguisse distinguir a verdade da falsidade.

Sheikh Aminuddin revela ainda que antes da independência o colono promovia propositadamente os assimilados e os não-muçulmanos. “Eram bolsas de estudo, era emprego, era tudo. Para o muçulmano sentir-se menosprezado. Mesquitas eram atiradas lá para os becos. Aqui em Maputo, enquanto Lourenço Marques, não tinha nenhuma mesquita na cidade. Todas eram na periferia, caso de Chadulia, Barraza, Cadria, Etifaque”, lembrou.

 

O Isslam em Moçambique com a chegada da independência

As zero horas da noite de 25 de Junho de 1975, Samora Moisés Machel, então Presidente da República de Moçambique, proclamou a independência total e completa de Moçambique, com isso vieram novos tempos, com a bandeira moçambicana hasteada viu-se uma nova luz para o Isslam no país.

Isso só foi possível porque houve uma geração de jovens que conseguiu sair do país para aprender a religião islâmica em países já independentes que tinham o isslam como orientação no seu dia-a-dia.

“Nós fomos praticamente a última geração que conseguiu furar para ir estudar. Antes de mim, havia o Sheikh Abubakar Manjira, Maulana Cassimo David, Sheikh Muhammad Yussuff, esse género”, lembrou sublinhando que havia falta de memorizadores do Alcorão e pessoas formadas em teologia islâmica.

Nos anos 70 a 80 com a existem de moçambicanos já com formação em matérias islâmicas iniciou um novo capítulo, marcado por oposição e conflito face a propagação das práticas islâmicas fundamentadas no Alcorão e na Sunnah.

“Depois de se formarem, já em Moçambique tiveram um grande trabalho e grande oposição. Quando vieram disseram que não, o Isslam é Quran e Hadith, começou logo a guerra e questionaram como nós vamos deixar Maulid e Ziyarat”, contou o Sheikh lembrando que foram acusados de trazerem um Isslam diferente do que já havia.

“Eu quando lancei o meu primeiro livro, Os Pilares da Fé, aqui em Moçambique, no Norte, em Nampula, houve manifestações contra mim. Porque no livro eu criticava Maulide e Ziyarat. Com o trabalho dos Álimos essas práticas reduziram”, referiu.

Segundo conta o nosso entrevistado, quando se deu a independência, Maputo e arredores, não tinham mais que dez mesquitas, enquanto actualmente existem cerca de 200. Por isso sublinha que “a independência trouxe ganhos para os muçulmanos”.

 

Transformação do Isslam em Moçambique com a independência

Quanto mais anos se passaram depois da independência, com o trabalho que era feito relacionado ao dawah (propagação do Isslam) as pessoas começaram a entender o que a religião islâmica verdadeiramente é.

“Muita gente já sabe ler e memorizou o Qur’án, já temos algumas literaturas, até já conseguimos traduzir o Qur’án. As pessoas, já entendem e identificam-se com o Isslam”, afirmou alegremente.

Apesar dos avanços Sheikh Aminuddin avisa que os muçulmanos não devem cruzar os braços pois a medida que a religião cresce o inimigo também desenvolve novas formas de combater e desviar os muçulmanos. 

“Dizer que o isslam é sempre um alvo a ser abatido. Não é de hoje”, sublinhou lembrando que muitos consideram a religião islâmica uma ameaça.

Para fazer frente a estas campanhas contra a religião islâmica, o teólogo orienta a constante busca de conhecimento. “O que temos que fazer como muçulmanos é equipar-nos com o conhecimento correto do Qur’án e Hadith. É preciso que os jovens aprendam e apresentem o Isslam verdadeiro, o de paz, de boa convivência. O Isslam que respeita a mulher, os vizinhos, até os animais”, sublinhou.

Para o sheikh se actualmente existem pessoas contra o Isslam é porque elas não conhecem verdadeiramente a religião islâmica e acham que ela vem contrariar as outras religiões.

O muçulmano não é contra o cristão, porque se você não acreditar em Cristo não é muçulmano. O Isslam é uma continuação de uma mensagem trazida por Jesus Cristo, por Moisés, por David, Salomão, todos os profetas”, destacou.

 

Os muçulmanos devem apostar na educação

Questionado sobre as prioridades dos muçulmanos para os próximos anos de Moçambique independente, o teólogo prontamente respondeu que se deve apostar na busca do conhecimento.

O isslam é uma religião que aposta na educação. Não é por acaso que Allah diz Iqra na primeira revelação. Allah não disse faz sualat ou jejum. Porquê disse iqra? Para logo indicar a natureza desta religião. Esta religião está apostada na difusão de conhecimento. No Alcorão Allah diz: Saiba que não há outro Deus fora Allah. Então, sabedoria vem ainda antes do Kalima também.

No entender do sheikh desde que o muçulmano deixou esta orientação de estudar, perdeu-se na religião e o mundo. “O din está perdido, dunia também estamos atrasados”, lamentou o Sheikh apontando o conhecimento como a chave do sucesso.

Razão pela qual frisa que nenhuma criança muçulmana deve ficar em casa sem estudo. 

“Uma perspectiva para nós, em Moçambique, e no mundo em geral, é a gente deve voltar às nossas raízes, apostar na educação. Todos os muçulmanos, ninguém podem ficar atrás, temos que estudar. Sem estudo não temos futuro”, orientou.

Baseando-se no Imam Shafi, um proeminente estudioso muçulmano, o Sheikh sublinha que ao invés dos governos concentrarem-se na edificação ou na ampliação de cadeias para deter criminosos, é preciso apostar na educação.

“A maior parte dos criminosos são os tais que são analfabetos, não têm nenhuma profissão, não têm nada. Mas se der uma enxada e pá, um instrumento, um computador, uma caneta na mão de alguém, ele não vai ter espaço para pegar na arma. Porque a mão está ocupada em alguma coisa, a mão que está vazia é que vai procurar a arma para fazer estragos”, justificou.

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