De acordo com Ahmad, a conveniência da tecnologia moderna criou um terreno fértil para a “preguiça e a falta de paixão”, elementos que ela aponta como potenciais ruínas para a a comunidade muçulmana.

“A mídia de formato curto, que constantemente estimula nossos neurónios em busca daquela substância química que nos faz sentir bem… tomou conta de nossas vidas”, alerta a autora, destacando que essa busca por respostas rápidas sacrifica a profundidade necessária para a compreensão espiritual.

O perigo da orientação algorítmica

O cerne da questão reside na incapacidade da IA de replicar a nuance e a responsabilidade dos estudiosos humanos. Dados da Columbia Journalism, deste ano, revelam que modelos de IA forneceram respostas incorrectas para mais de 60 por cento das consultas religiosas. Apesar disso, muitos crentes recorrem a essas ferramentas em busca de facilidade.

Haya Ahmad ressalta que o conhecimento islâmico clássico sempre foi uma busca de sacrifício, não de cliques.

Ela cita o exemplo do Imam al-Bukhari, que viajava meses para verificar um único relato. “O conhecimento era conquistado por meio de disciplina, sacrifício e responsabilidade, não por respostas instantâneas ou familiaridade superficial”.

Em contraste, o “Sheikh GPT” baseia-se em conteúdos online que podem ser tendenciosos, especulativos ou totalmente fabricados.

IA e o “Engano do Dajjal”

A análise de Ahmad estabelece um paralelo entre a tecnologia de ponta e as profecias sobre o Dajjal, o anticristo. Ela argumenta que o engano moderno não virá necessariamente por força, mas por “familiaridade, conveniência e exposição constante”.

A disseminação de deepfakes é um exemplo prático dessa ameaça. No início de 2025, um vídeo alterado por IA do Sheikh Dr. Abdurahman Al-Sudais circulou amplamente, espalhando informações falsas e gerando confusão mesmo após ser desmentido oficialmente.

Um relatório da UNESCO de 2025 corrobora essa preocupação, descrevendo o conteúdo gerado por IA como o motor de uma “crise do conhecimento”, onde a linha entre o material autêntico e o fabricado se torna quase invisível para o olhar destreinado.

O resgate da “brasa quente”

A solução proposta não é o ludismo ou o abandono da tecnologia, mas sim o retorno ao aprendizado formal e à alfabetização digital crítica. Ahmad recorda o hadith narrado por Anas ibn Malik, onde o Profeta Muhammad (SAW) previu um tempo em que “aderir à própria religião será como segurar uma brasa quente”.

Para a autora, enfrentar o “Sheikh GPT” exige que o aprendizado do Isslam não seja terceirizado para algoritmos. “A compreensão adequada da religião requer conhecimento das tecnologias e mídias modernas, bem como ferramentas para avaliar criticamente as informações”, afirma.