Durante a palestra, foi contextualizado que as comunidades actuais se têm organizado de forma divisiva através de barreiras “artificiais”.

“Cor política, cor económica, cor social. As pessoas juntam-se pelo partido, pela classe, pelo bairro, pelo salário que recebem”, aponta o Sheikh, lamentando que essas linhas se tenham tornado mais fortes do que os laços que deviam unir a sociedade.

O Sheikh Daud Ibramogy traçou um paralelo histórico com o antigo orgulho de tribo e de sangue do período pré-islâmico alertando que a lógica exclusivista permanece viva sob novas roupagens. O resultado desta mentalidade de “os meus contra os outros” reflecte-se directamente na degradação das condições de vida e de trabalho.

“Quando a sociedade perde a identidade comum de irmandade, o mais forte deixa de sentir qualquer peso na consciência ao explorar o mais fraco. Já não é um irmão que está a ser prejudicado, passa a ser apenas ‘mão de obra’, apenas ‘custo’, apenas um número num contrato que ninguém lê até ao fim”, lamentou.

O Sheikh apela por justiça social, fundamentando-se nos ensinamentos do Profeta Muhammad (SAW) para abordar a precariedade e a falta de fiscalização no mercado de trabalho. Ele lembrou que garantir a dignidade de quem trabalha não é um acto de benevolência opcional.

“Dai ao trabalhador o seu salário antes que o seu suor seque”, diz o Sheikh, recorrendo às escrituras sagradas para sublinhar que se trata de um mandamento divino imperativo.

O sermão evocou ainda a Surat An-Nissa do Alcorão para lembrar que a justiça deve ser firme e cega a privilégios. “Sede firmes na justiça, testemunhas por Allah, ainda que seja contra vós mesmos (…) Seja rico ou pobre, Allah está mais próximo de ambos”.

Diante disso, Sheikh Daud criticou a facilidade com que se toleram contratos sem direitos e salários em atraso para benefício de interesses mundanos.

O Sheikh Daud Ibramogy clarificou que a existência de diferentes opiniões e origens não deve ser um factor de segregação. Baseando-se na Surat Al-Hujurat, o texto recorda que a diversidade humana foi desenhada pelo Criador “para que vos conhecêsseis”, e que “o mais nobre de vós, perante Allah, é o mais piedoso”, eliminando qualquer hierarquia assente em contas bancárias ou filiações partidárias.

O líder religioso salvaguardou o direito individual à participação cívica. “Recuperar esta identidade não significa deixar de ter opinião política ou económica. Cada um de nós vive na sociedade e tem o direito de pensar e escolher”.

Contudo, advertiu que quando as cores” institucionais e partidárias se sobrepõem à fraternidade, “é o mais fraco que paga a factura”.