É que, segundo o teólogo mesmo com a expansão de novas organizações, a falta de coesão interna ameaça a espiritualidade dos crentes. Para o líder religioso, num mundo pressionado pela globalização, a união deixou de ser apenas um ideal para se tornar uma “obrigação de sobrevivência” contra as influências externas.
O Sheikh começa por contextualizar que a preocupação com a união da Ummah (nação islâmica) é antiga, mas torna-se urgente hoje devido à proximidade que a tecnologia e a globalização impuseram.
“O mundo está mais próximo e, a partir daí, há pressão também do Ocidente e de outras culturas. Então, isso tudo leva à necessidade de nós recordarmos a união. Porque, com a união, vem a misericórdia de Allah”, explica Sheikh Arby, sublinhando que “a união, estarmos juntos, é misericórdia enquanto a divisão é um castigo.”
Para o Sheikh, a organização da comunidade é impossível sem unidade. Ele defende que exortar a união deve ser um exercício constante, pois é a base para que os muçulmanos possam se posicionar de forma digna na sociedade moçambicana.
Crise de liderança e falta de sinceridade ameaçam a união dos muçulmanos
Ao olhar para a realidade moçambicana, Sheikh Arby é directo ao identificar as barreiras que impedem a coesão. O primeiro obstáculo citado é a falta de sinceridade naqueles que conduzem a comunidade.
“No nosso contexto, eu acredito que o obstáculo é a falta de sinceridade”, conta apontando que muitos líderes podem estar focados em objectivos pessoais, posições sociais ou vínculos políticos, esquecendo o propósito colectivo da adoração a Allah.
Outro ponto apontado durante a entrevista, que o Sheikh considera crítico, é a falta de uma liderança unificada. Razão pela qual ele defende que deve haver uma visão única perspectivando que futuramente toda comunidade pode ser muçulmana.
O Sheikh compara Moçambique com vizinhos como África do Sul e Tanzânia, onde, apesar de existirem divergências, há uma estrutura de liderança mais clara.
“Por que não colaborarmos com jovens, por exemplo? Eu tenho medo que o jovem tire o meu lugar, pois ele estudou mais que eu, tem amis força, então, não vale a pena”, desabafa o Sheikh, criticando o egoísmo e o apego ao poder que travam a renovação das instituições.
Divergências na doutrina alimentam a divisão e mancha o Dawah
Para além dos obstáculos anteriores, o Sheikh aponta as divergências de opinião, na jurisprudência, e na doutrina como preocupação actual que afectam a questão da união.
Ele recorda que, no tempo do Profeta Muhammad (S.A.W), já havia diferenças na forma de interpretar ordens práticas, e o Profeta as consentia.
No entanto, Sheikh Arby alerta que a divergência na doutrina é “um perigo maior”. Ele cita como exemplo as diferentes percepções sobre a natureza de Allah, o que acaba por criar fracturas profundas.
“Divergência na doutrina é um perigo maior na sociedade. Pode haver divergência em outras coisas mas não no aquidah”, apelou.
Ele explica que a falta de consenso doutrinário reflecte-se na criação de múltiplas associações que, muitas vezes, surgem não para somar, mas para fazer oposição umas às outras.
O teólogo frisa eu a divisão interna não passa despercebida pelos não-muçulmanos. O Sheikh reconhece que a falta de união passa uma imagem negativa, embora ressalte que Moçambique tem dado bons exemplos, contudo, a divisão torna-se “notória” em épocas festivas como o Eid.
“Aí é mais notório… porque este zoa com aquele, aquele zoa com aquele. É uma imagem negativa que deixam, que em certo ponto pode até criar obstáculo no próprio Dawah”, lamentou.
“Não seja fã de indivíduos”
Para os jovens e crentes que se sentem confusos no meio de tantas opiniões divergentes, o Sheikh Assamo Arby aconselha a procurar o conhecimento directo nas fontes. Ele reforça que nenhum líder humano é infalível e que a verdade deve ser buscada no Alcorão e na Sunnah.
“Não se procura a verdade nas pessoas, mas conhecendo a verdade conhecerá as pessoas que seguem essa verdade. O jovem tem que aprender que não pode ser fã de um indivíduo”, sublinhou.
Por fim, o Sheikh apela para o retorno aos valores básicos da fé, caso da lealdade e o amor fraternal. Ele destaca que a prática da saudação islâmica, As-salamu alaikum, não é apenas um “olá”, mas uma prece de paz que tem o poder de aproximar os corações.
“Nenhum de vós entrará no paraíso sem que tenha fé. E não terão fé sem que tenham amor entre vós”, citou o Sheikh, lembrando que o caminho para a união começa com o gesto simples de desejar a paz ao próximo, independentemente de o conhecer ou não.

0 Comentários