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De Al-Azhar para o Hamza: A missão do Sheikh Sami Kandil e o legado dos teólogos egípcios em Moçambique

De Al-Azhar para o Hamza: A missão do Sheikh Sami Kandil e o legado dos teólogos egípcios em Moçambique
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Redação Autor
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Educação

No Instituto Hamza, o bastião da educação islâmica em Moçambique, encontramos o Sheikh egípcio Sami Kandil, um teólogo cuja trajectória une a tradição milenar da Universidade Al-Azhar, no Cairo, à vibrante realidade moçambicana. Enviado como parte de um grupo teólogos para ensinar a religião, o Sheikh partilhou, em entrevista ao Espaço Islâmico, os desafios de deixar a sua zona de conforto para semear o conhecimento numa terra de cultura e língua distintas.

A presença de um teólogo de Al-Azhar em Moçambique não é fruto do acaso, mas de um rigoroso processo de selecção que começa muito antes do embarque. Para o Sheikh Sami Kandil, ser um “Embaixador de Al-Azhar” exige uma vida inteira de dedicação aos livros sagrados.

“Primeiro, você tem que passar por muitos exames de línguas, de Alcorão, Tafsir, Hadith, Fiqh e em todos os assuntos religiosos fundamentais. Não basta saber; é preciso dominar a escrita e a interpretação profunda desses temas”, contou.

Curiosamente, o destino original do Sheikh não era o continente africano. Com um domínio fluente de línguas e uma vasta experiência internacional, ele havia se preparado para a Europa.

“Eu me candidatei para ir para a Europa. Fiz exames em inglês porque pretendia servir em comunidades que falam essa língua. Antes de Moçambique, fui Imam na Polónia, no Centro Islâmico de Varsóvia”, revela.

Contudo, a necessidade de fortalecer o ensino teológico em Moçambique fez com que a Universidade o designasse para o Instituto Hamza, a maior e mais antiga instituição de formação de Hafizes e Álimos do país.

Desafios da adaptação pedagógica de Al-Azhar em Moçambique

De acordo com o entrevistado, deixar a zona de conforto do Egipto para ensinar num país como Moçambique trouxe desafios que nenhum exame de teologia poderia prever. O maior deles, segundo o Sheikh, foi o encontro com a língua portuguesa.

“O maior desafio de adaptação cultural, é a língua portuguesa. Eu não sabia como falar português. Isso é muito difícil, porque você precisa da língua para fazer tudo. Algumas tradições e hábitos de vida são diferentes do Egipto, mas o mais difícil é mesmo o português”, revelou.

Para não deixar que a barreira da língua impedisse a transmissão do conhecimento, o Sheikh Sami adoptou uma estratégia pedagógica de tutoria por pares. No Instituto Hamza, ele identifica os alunos mais avançados, aqueles que já dominam o árabe fluentemente e transforma-os em co-professores.

“Eu ensino em árabe e peço a esses alunos para fazerem o papel do professor, explicando aos outros em português o que entenderam. É uma forma de ter certeza que todos, sem excepção, compreenderam a essência da mensagem”, explica.

Um dos pontos da entrevista foi como o Sheikh equilibra o ensino tradicional da teologia com os desafios da modernidade. Para ele, o Isslam não é uma religião estática que rejeita o progresso; pelo contrário, a metodologia de Al-Azhar incentiva o uso de ferramentas contemporâneas para facilitar a compreensão.

“O Isslam nos obriga a usar qualquer coisa que nos ajude a ensinar os alunos de uma forma boa. Não há objecção em usar formas modernas de ensino. O nosso pilar fundamental é dar-lhes o direito a crença correta, ensinar a boa recitação do Alcorão, a Sunnah e o Tafsir, mas usamos o que é possível e o que as ferramentas actuais nos permitem para que a aprendizagem seja eficaz”, avançou.

Entretanto, o Sheikh nota uma diferença estrutural entre o ensino no Egipto e em Moçambique. Enquanto no Egipto o sistema absorve a criança aos dois ou três anos de idade, garantindo uma formação linear até aos 22 anos, em Moçambique a realidade é outra.

“Aqui temos idades misturadas. Alunos de 15, 20 e 30 anos na mesma sala. Isso afecta muito a aprendizagem porque a mentalidade e a base de compreensão não são as mesmas. Alguns alunos chegam aqui sem ter aprendido nada antes, o que torna o processo mais lento e exigente”, analisa com paciência.

“Ensinar a tolerância é o trabalho dos profetas, mas as instituições precisam de apoio para sobreviver”

Num mundo onde a religião é muitas vezes mal interpretada, o Sheikh Sami Kandil utiliza a sua posição para plantar sementes de paz. Quando questionado sobre o conselho que deixa aos seus alunos, que no futuro serão os líderes espirituais de Moçambique, a palavra de ordem é a tolerância.

“Meu conselho para os alunos é: sejam tolerantes. Não chamem à violência. Lidem com as pessoas com sabedoria e paciência. Ensinem o Isslam de maneira simples, sem ser fundamentalista. É preciso ensinar a rezar passo a passo, de forma doce e não violenta. O nosso trabalho é construir e ensinar, nunca destruir”, sublinhou.

Esta filosofia de “passo a passo” é o que mantém o Sheikh motivado, mesmo estando longe da sua família. Ele descreve a sua profissão como “o trabalho dos profetas”.

“Quando eu vejo um bom efeito nos alunos, quando vejo que eles aprendem algo e o aplicam para ensinar outras pessoas ou dar uma Khutbah (sermão), eu sinto um conforto imenso. Esse é o meu legado”, afirma com um brilho nos olhos.

Ao encerrar o diálogo, o Sheikh Sami Kandil fez questão de dirigir uma mensagem não aos alunos, mas aos pais e à sociedade civil moçambicana. Ele reconhece que a formação de um Álimo de qualidade exige recursos que, muitas vezes, as instituições locais não possuem em abundância.

“Peço aos pais e às mães que incentivem seus filhos a aprender o Isslam de uma maneira moderna e boa. Mas também peço que apoiem estas instituições. O Instituto Hamza e outros precisam de apoio financeiro. Os alunos vêm de longe, não têm dinheiro para comida, roupas ou livros. Eles precisam de ajuda para poderem se focar nos estudos. Apoiar estas casas de saber é um investimento no bem de Moçambique”, sublinhou.

A passagem do Sheikh Sami Kandil por Moçambique está longe de ser apenas um contrato de trabalho; é um capítulo de intercâmbio cultural profundo. Quando o seu ciclo terminar e ele regressar às margens do Nilo, o Sheikh espera olhar para trás e ver que o “traço” que deixou no coração dos jovens moçambicanos foi o de um Isslam que dialoga, que respeita as diferenças e que, acima de tudo, educa para a paz.

 

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