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Arafat Cossa analisa a evolução e os desafios da propagação da religião islâmica na internet em Moçambique

Arafat Cossa analisa a evolução e os desafios da propagação da religião islâmica na internet em Moçambique
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Redação Autor
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Entre a pregação de valores e o desafio de combater o preconceito online, Arafat Cossa consolidou-se como uma das vozes muçulmanas mais influentes da lusofonia no mundo digital. Há dez anos transformando redes sociais em ferramentas de trabalho e fé, o influenciador concedeu uma entrevista exclusiva ao Espaço Islâmico, onde traça um diagnóstico sobre como a nova geração de fiéis está navegando na complexa relação entre o Isslam e as plataformas digitais.

Fazendo uma retrospectiva o nosso entrevistado começa por dizer que houve mudanças na forma como os jovens muçulmanos usavam as redes sociais há dez anos comparativamente ao que se vive nos dias de hoje.

“Alhamdulillah, houve melhorias porque temos cada vez mais jovens muçulmanos que decidiram estar nas redes sociais não como meros consumidores, mas também na posição de quem oferece conteúdo”, disse Arafat.

No entanto frisa que nem todos estão a usar as plataformas com objectivo de promover a religião islâmica mas como uma ferramenta para ganharem o seu sustento de forma lícita vendendo seus produtos e serviços.

Ainda assim destaca que o movimento de dawah nas redes sociais tende a crescer, entretanto certas acções de determinados internautas o preocupam.

“Nós já não conseguimos fazer a diferença entre ouvir um Ayat (versículo), que ouvir dizer que significa alguma coisa, e eu, Arafat, me posicionar como se tivesse conhecimento embasado do Din (religião) e começar a transmitir ou a emitir veredictos. Vejo com muita frequência”, lamentou frisando que a religião islâmica não é vivida na base da emoção.

 

Há dez anos era difícil encontrar vídeo de um Álimo a falar nas redes sociais

Ainda analisando o passado digital moçambicano na perspectiva de divulgação da religião islâmica Arafat lembra que dificilmente encontravam conteúdos audiovisuais de teólogos moçambicanos nas redes sociais, diferentemente dos dias de hoje onde praticamente todos os Álimos estão a falar na internet.

“Havia um tabu sobre poder ou não fazer vídeos, será que não podemos? Se faz vídeo, tem que apontar a câmera para o chão ou é só áudio, mas com uma imagem no fundo. Hoje em dia, Graças a Allah, nós já conseguimos ter cobertura dos eventos em directo”, frisou.

Ademais acrescenta que os mais jovens actualmente tem recorrido as plataformas sociais para fortificar a sua espiritualidade.

Questionado se é o método é viável, respondeu afirmativamente mas alerta que não se deve olhar essas plataformas como único meio para aquisição do conhecimento.

“Muito do que eu aprendi a respeito da religião, pelo menos nos primeiros anos em que eu decidi voltar para perto de Allah, aprendi através da internet”, frisa Arafat Cossa, acrescentando que “é preciso também ir a Mesquita, é lá onde a verdadeira realidade de fortalecimento e crescimento da espiritualidade do homem muçulmano acontece.”

Aliás, ele sublinha que “não há almoços grátis”, pois entre os vídeos de palestras ou outros conteúdos islâmicos podem aparecer conteúdos que testam a religiosidade do crente.

“No scroll entre um vídeo do Sheikh Takdir e um vídeo do Maulana Fayaz, aparece uma moça que não está bem vestida. No scroll entre um vídeo do Sheikh Aminuddin e um vídeo do Sheikh Suleiman Fonseca, aparece algum ensinamento que não tem absolutamente nada a ver”, alerta.

O nosso entrevistado acrescenta que os conteúdos que aparecem nas contas das redes sociais reflectem o comportamento do usuário.

 

Intenção correta apontada como solução

Para que esses conteúdos não afectem a fé, Arafat Cossa sugere a “limpeza do coração” bem como renovação da intenção quando o muçulmano acede as redes sociais.

“Se nós estamos a usar essas plataformas na esperança delas serem um meio de encurtar distâncias, de reduzir sacrifícios e acesso ao conhecimento, temos que ir para lá com isso em conta. E tudo aquilo que nós fizermos com o objectivo de alcançar a satisfação de Allah, Ele vai nos facilitar”, frisou.

De acordo com a nossa fonte “a privacidade é muito perigosa se ela não for devidamente gerida”, razão pela qual sugere que o jovem tenha a capacidade de saber que páginas seguir e quanto tempo gastar nessas plataformas.

Em meio as dinâmicas das redes sociais encontramos as tendências, comummente chamada de “trends”. As trends são conteúdos em diferentes formatos que ficam popularizados nas redes sociais, e os muçulmanos não ficam fora dessas dinâmicas.

Nos últimos tempos temos visto muçulmanos fazendo vídeos dançados, cantando músicas entre outras coisas proibidas pelo Sagrado Alcorão e a Sunnah. Lamentando a situação o nosso entrevistado entende que os protagonistas destes conteúdos fazem-no por estar atrás de validação social.

“Às vezes nós fazemos estas coisas, estamos à procura de validação. O que é que nos dão os vídeos do TikTok? Likes, comentários, partilhas, visualizações. Gostamos disso, desses títulos. Independentemente do nível de temor que nós temos. Já não fazemos por Allah, fazemos para buscar aquilo”, lamentou.

Condenado o acto, a nossa fonte lembra que os companheiros do profeta Muhammad (SAW) viralizaram numa época em que não havia internet pois estavam preocupados somente com a satisfação de Allah.

“Todos nós podemos viralizar. Por quê os suahabas viralizaram sem ter Internet? Porque eles entenderam que a verdadeira viralização é aquela que nós alcançamos quando estamos à procura da satisfação de Allah”, destacou.

Para contornar o desejo excessivo pela validação social Cossa sugere o retorno a Allah, e o distanciamento dos interesses mundanos bem como da dependência da aprovação do Homem. Em meio as críticas dessas acções surgem conflitos entre os usuários das redes sociais.

 

 “Tudo aquilo que nós seguimos é responsabilidade nossa”

Com o aumento da oferta de conteúdos nas redes sociais e a tendência de criação de conteúdos visando assumir a posição de influenciador digital Arafat Cossa recorda que é preciso temer a Deus para que se possa perceber o poder que as pessoas têm nas suas mãos.

“Se você cometer um pecado e depois se arrepender por ele e pedir perdão a Allah escondido entre vocês dois, Ele vai perdoar e ninguém vai saber. Quando você faz o mesmo pecado, só que publicamente, você está a pecar e a pecar com orgulho”, criticou.

Em relação aos influenciados Arafat lembra que “tudo aquilo que nós seguimos é responsabilidade nossa”, frisando que deve haver atenção nas individualidades que as pessoas seguem nas redes sociais.

“Se os muçulmanos deixarem de seguir influenciadores que trazem conteúdos que distanciam de Allah, se esse influenciador realmente precisa dos muçulmanos para sobreviver, ele vai começar a trazer conteúdo que realmente queremos consumir”, comentou.

No mesmo contexto Cossa apelou as empresas e marcas de muçulmanos a apostarem também nas figuras e páginas islâmicas para promoverem os seus produtos.

 

Os líderes religiosos precisam de assessoria para gerir suas redes sociais

Enquanto o número de usuários das plataformas sociais cresce há ainda líderes religiosos a diminuírem ou evitarem a utilização das redes sociais.

Sobre isso o nosso entrevistado diz entender mesmo frisando que é a nova dinâmica social, é neste sentido propõe soluções.

“Respeito cada uma das pessoas que estão a fugir das redes sociais porque as implicações que isto tem para a nossa forma de trabalhar são terríveis. Entendo os Ulamas que têm redes sociais mas não são eles a gerir”, disse Arafat Cossa argumentando que os teólogos deveriam ter assessoria de comunicação imagem, particularmente na gestão das redes sociais.

Outro ponto levantado ao longo da conversa é a necessidade de os líderes religiosos entrarem para as redes sociais como forma de dar acompanhamento aos muçulmanos nativos digitais.

“Enquanto vocês os nossos queridos Ulamas, não estiverem a falar para essa juventude saibam que ela vai estar a ouvir outras pessoas. A pergunta é o que é que essas pessoas estão a dizer? Porque se eu não estiver a ouvir o Qur’án, se eu não estiver a ouvir o Hadith, se eu não estiver a ouvir o Tafssir, nas redes sociais, eu sempre vou estar a ouvir alguma coisa. A pergunta é o que é essa alguma coisa?”, Questionou.

 

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