A ética do sacrifício no Isslam
A ética do sacrifício no Isslam
A problemática do altruísmo permanece uma das questões centrais da actualidade, principalmente da Filosofia Moral. Em tempos marcados pela intensificação do consumismo e do individualismo causada pela galopante mercantilização das relações humanas e, doravante, pela fragmentação ética das sociedades modernas, torna-se necessário revisitar tradições espirituais que preservam uma concepção comunitária da existência.
Entre essas tradições, o Isslam apresenta uma compreensão singular da relação entre sacrifício, responsabilidade e transcendência como ferramentas essenciais para uma dimensão ética de justeza social.
O Eid al-Adha, conhecido como Festa do Sacrifício, representa uma das manifestações da ética islâmica. Contudo, a sua relevância ultrapassa o domínio estritamente ritual, que resume-se no abate de um animal, como é comummente assumido no território moçambicano como um gado bovino, caprino até mesmo ovino.
O acto sacrificial constitui uma pedagogia moral orientada para a superação do ego, para a responsabilidade perante o outro e para a construção de uma ordem social baseada na partilha. Nestes termos, o sacrifício não aparece como destruição arbitrária, mas como expressão simbólica da renúncia ao egocentrismo humano.
Assim como Allah adverte delicadamente no Alcorão: “Nem a carne nem o sangue deles chegam a Allah, mas sim a vossa piedade (taqwā) é que Lhe chega.” (ALCORÃO, Surah Al-Hajj 22:37)
No outro versículo Allah diz: “Alimentam o pobre, o órfão e o cativo, dizendo: alimentamos-vos apenas pela causa de Deus.” (ALCORÃO, SURATA AL-INSAN 76:8-9)
Num mundo em que a racionalidade económica tende a reduzir a vida ao cálculo utilitário como afirmam éticas utilitarista como Max weber, Horkheimer etc., a ideia de que o valor moral de uma acção depende dos seus resultados tais como: utilidade, lucro, felicidade, eficiência. E quando levada ao extremo, tudo passa a ser medido em termos de ganho e perda”.
A ética por traz do Eid al-Adha, por sua vez, conserva uma lógica ética fundamentada na dádiva, o indivíduo é chamado a reconhecer que a propriedade, a riqueza e até a própria existência não constituem realidades absolutas, mas responsabilidades confiadas temporariamente ao ser humano.
Portanto, desloca a ideia da centralização da moralidade do “eu” isolado pela eficiência do lucro como critério de relação co-humana para a comunidade humana, fundamentada pelo altruísmo. Diante do exposto acima, altruísmo no Isslam estabelece-se como um princípio que se fundamenta como uma condição da fé autêntica (iman), ligando directamente a crença e responsabilidade moral pelo outro.
A expressão que exemplifica de forma directa está no hadith narrado por Anas ibn Malik, no qual o Profeta Muhammad afirma: “nenhum de vós crê verdadeiramente até desejar para o seu irmão aquilo que deseja para si mesmo”, preservado nas colecções canónicas de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim.
Este hadith estabelece uma ética da reciprocidade moral que ultrapassa o mero sentimentalismo. Neste horizonte, o outro deixa de ser concorrente e passa a constituir condição da própria realização espiritual.
O Eid al-Adha encontra o seu núcleo simbólico dentro da religião islâmica na narrativa do sacrifício de profeta Ibrahim. O episódio representa que o verdadeiro objecto sacrificado não é apenas o animal, sacrifica-se o ego humano, assume a devoção total e completa a Deus.
O Alcorão explicita “Nem a carne nem o sangue deles chegam a Allah, mas sim a vossa piedade (taqwā) é que Lhe chega.” (ALCORÃO, Surah Al-Hajj 22:37) Simplificando o versículo, o Isslam desloca o valor do ritual do exterior referente a carne, sangue e riqueza para o interior que se refere a taqwā, intenção, justiça e solidariedade.
A passagem supra citada do Alcorão sagrado explica uma dimensão ética do acto religioso, na qual o sacrifício não é estritamente valorizado pela sua materialidade, mas, doravante, pela transformação moral que produz no sujeito.
Assim sendo, o valor do ritual reside na formação de uma consciência ética orientada para a justiça e para a responsabilidade perante o outro que não pode ser reduzido a uma mera execução do gesto exterior.
Em sentido contrário do que foi supra exposto, a sociedade contemporânea frequentemente interpreta o sacrifício dentro da religião através de categorias redutivas: irracionalidade, violência contra animais ou mais extremo reduz-se a uma simples tradição cultural.
Contudo, tal interpretação ignora o carácter filosófico e espiritual do rito. No entanto, o sacrifício islâmico constitui, doravante, uma dramatização moral da renúncia ao absolutismo do “eu” que impera o mundo hodierno e ao mesmo tempo assume a dimensão humanista comunitária o “nós”.
Não obstante, a cultura contemporânea moçambicana promove frequentemente uma antropologia do consumo. O indivíduo é incentivado a acumular, competir e afirmar-se através da posse.
Em contrapartida, o Eid al-Adha introduz uma lógica oposta, partilhar, oferecer e reconhecer os limites da propriedade privada.
O animal sacrificado é tradicionalmente dividido em três partes: uma para a família, outra para parentes e amigos, e outra destinada aos pobres.
Nesta senda, o alimento deixa de ser mercadoria exclusiva e transforma-se em instrumento de comunhão social. Enfim, o altruísmo islâmico manifesta-se, portanto, como crítica prática à desigualdade extrema. O pobre não aparece como objecto passivo de compaixão, mas como sujeito de direito moral dentro da comunidade.
Mussa Adamo
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